Ver futebol, Wenger e Abel

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Ver futebol é a antítese da clareza racional.

Não, não porque o torcedor seja uma besta quadrada motivada apenas por urros e apupos, um simiesco homúnculo irracional, mas porque torcer é, antes de mais nada, pôr à prova identidades, esperanças, amores, horrores.

O melhor jogador do mundo que eu vi jogar foi Don Romero trajando a camisa sete do Fluminense.

Nelson rodrigues já definiu que se os fatos contradizem frases como a colocada acima, pior pros fatos. E não, ele não estava fazendo um tratado sob a negação do óbvio, mas sob o ponto de vista da percepção do torcedor.

Objetivamente, os melhores jogadores de todos os tempos que eu vi jogar devem incluir Maradona, Messi, Romário, Zidane, Platini, Falcão e… Zico, mas objetivamente é um termo que não explica porque não consigo claramente perceber a genialidade de Zico senão com aquele esgar de rancor e fúria relativo a gols de falta em Juiz de Fora.

É difícil explicar para outros torcedores o tamanho de Parreira sob meu olhar, ou de Thiago Silva ou Thiago Neves, Fred, Aldo, Branco, Ricardo Gomes…

Abel é mais fácil, aquele jeito bonachão gente boa facilita que ele seja sonho de consumo e percebido como parte do imaginário do futebol como um ente independente do Fluminense, embora marcado por ser tricolor.

E é aqui que lendo Nick Hornby sobre Wenger dá pra entender as diferentes leituras sobre Abel recentemente. Gerações diferentes percebendo o Fluminense de forma diferente e tendo em torno disso uma reação dispare.

Abel fora chamado de burro em 2012 e seis anos depois permanece sendo, mesmo diante de elencos enfraquecidos e dificuldades em lidar com as transformações do futebol ele permaneceu aguerrido a uma lógica de futebol que eu não consigo deixar de apoiar.

Abel está longe de ser o técnico de 2012 eu futebol hoje exige que ele seja diferente e exige dele algo que ano passado ele não conseguiu fazer, mas esse ano parece que está conseguindo: Um time competitivo e moderno.

Há torcedores da minha geração, que inclusive passaram por anos de trocas de técnicos medíocres por outros técnicos medíocres e elencos piores ainda que percebem em Abel o cara que consegue fazer de elencos ruins um time e um time que honra aquilo que sonhamos, mas gerações mais recentes, acostumadas com uma análise tática menos emotiva e com elencos fornidos não enxergam por vezes o papel de Abel, e ai ele vira “ultrapassado” e “burro”.

Abel em 2012 juntou o amor pelo resultado com um time que jogava ligado à torcida. Fomos campeões brasileiros sem sofrer, ao contrário de 2010, e sem temer que o técnico saísse pela janela em busca de salários maiores.

Abel em 2017 sofreu com trocas de jogadores, reposições ruins e as próprias oscilações, mas seguiu e seguiu cumprindo oque prometeu, construindo um time competitivo com o que se pode conseguir na situação atual do clube.

E com tudo isso, qual a relação entre Wenger e Abel? Assim como Nick Hornby eu não analiso tão racionalmente assim pra escrever oque escrevi acima, ei inclusive torço para que o que escrevi acima esteja correto, porque Abel é um patrimônio do Fluminense.

Meu olhar pro jogo olha as linhas, as entrelinhas e os subtextos da tática incorrendo na paixão detalhada por um clube e um técnico inerentemente ligado à ele.

Veja bem, estamos falando de um técnico que é o segundo que mais dirigiu o Fluminense em todos os tempos e treina um clube onde Parreira treinou num brasileiro de série C abandonando uma carreira na Europa em nome da salvação do tricolor.

Estamos falando de um treinador que consegue estar acima de Parreira no panteão de ídolos da casamata, mesmo Parreira ainda sendo ídolo e ter feito oque fez, incluindo um título Brasileiro comandando Don Romero.

A clareza racional aparente na análise da linha de cinco, no avanço dos alas, na amplitude, nos gols do Pedro, na atuação do Marcos Junior, toda ela é uma clareza que foge do racional e contribui para uma esperança amorosa de que tudo dê certo.

O meu olhar torce e mesmo não querendo distorce.

E ao olhar se emociona com vitórias magras e lutadas porque um dos destaques do time deu pane no HD e foi expulso com quinze minutos de jogo.

E se emociona vendo Abel ser Abel, nitidamente tricolor, nitidamente feliz com a luta por cem minutos para que uma vitória ocorresse, com um homem a menos, contra uma equipe mais talentosa.

Porque ver não é um enxergar neutro como se a câmera o fosse, ver é sentir os olhos saindo do peito.

E ver futebol liga Abel e Wenger pela gratidão de gerações para com eles em seus trabalhos nos clubes, e pela miopia de outras, que não sentiram o que eles são, e foram, e serão.

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Como você ama seu clube de coração?

Como você ama seu clube de coração?

 

Escrever sobre o amor a um clube tem enormes complicações.

Porque amar um clube de futebol não é como amar uma mulher ou um filho, não clama em ti a sanha de erguer carros para salvá-los ou de nutri-los com o próprio sangue se preciso.

Amar um clube sequer é amar sua profissão ou uma ciência ou uma teoria, uma fé.

Amar um clube é amar ser.

Ser, antes de mais nada, é o que é o amor a um clube.

Poucos versos do hino do Fluminense me causam mais emoção que “O Fluminense me domina, eu tenho amor ao tricolor”.

E não por uma razão especial além da obviedade ululante: amar um clube é ser parte de seus domínios, não como oprimido, mas como parte da pele do clube, ele mesmo marcado em ti, na alma, na pele.

O Fluminense me domina, pois não há em mima nada que não seja Fluminense. Não há nada em mim além de Fluminense e nada em mim existe sem ser Fluminense.

Este amor que é identitário e exclusivo de quem ama e exerce a identidade não é exclusivo do tricolor, ele assume outras formas, mas persiste vivo no colorado, no Rubro-Negro, no Alviverde e demais cores combinadas do planisfério futebolístico.

Em mim e nos tricolores ele assume o domínio do Fluminense sobre nós, a mitologia rodrigueana, a iconografia santa de Castilho, Telê, Rivellino, Assis, Washington, Ricardo Gomes, Branco, Romerito,  Renato Gaúcho, Thiago Silva, Roger até chegar em Thiago Neves, Fred, Conca, Cavalieri e Gum, o único remanescente vivo nas naus tricolores.

Em nós o amor e a identidade transcende os medos dos sobrenaturais de almeida, a fé em João de Deus e o papel do Gravatinha na construção de nossos sucessos.

Porque o Fluminense me domina, eu tenho amor ao tricolor, e um amor que é amar o ser, o estar em cores únicas e combinadas que em nossa pele nos fazem nós.

 

 

O Fluminense que temos, queremos e precisamos

O Fluminense que temos, queremos e precisamos

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Escrever sobre o Fluminense ultimamente é criar treta, procurar chifre em cabeça de cavalo e lidar com muita gente louca por escolher uma caixa pra te limitar, um nome para te xingar e um grupo político pra chamar de seu.

Sobre o futebol do Fluminense a torcida se divide entre doidivanas do apocalipse, doidivanas da esperança, doidivanas do meio termo e doidivanas da tentativa de análise crítica.

Como somos todos doidivanas eu escolhi uma tentativa de juntar esperança com crítica, inclusive à diretoria.

Tive sucesso? Não sei. Terei? Sei menos ainda.

A questão é que depois do pavor de ver Dourado e Scarpa indo embora, a tragédia das dispensas de Cavalieri e turma, o bloqueio de receita,etc eu cheguei a balançar aqui na cadeira achando que os anos 1990 iam voltar.

Mas eis que depois de mais um mês, uma goleada sobre o Flamengo e uma derrota para o Avaí, o receio agora é palpável e atende pelo quão longe pode ir um time operário bem treinado e que precisa de reforços no decorrer do ano, mas sem o desespero dos apocalípticos.

No plano administrativo o receio é o quão passível de ser pressionada para romper com ações positivas para a profissionalização do clube, tentando reverter os erros nada profissionais cometidos nos últimos anos por esta diretoria e pela anterior.

Vou tentar responder nesse texto os dois receios.

No âmbito esportivo a gente precisa saber o que analisar, que tipo de reforço a gente precisa e quer e que tipo de análise tática a gente precisa ter sobre o novo trabalho do Abel.

No plano tático o lado positivo é que o time joga com triangulações, bem organizado no jogo apoiado no ataque com jogadores exercendo a função tática de apoiar as jogadas pelas laterais, o centroavante fazendo bom pivô e  os meias chegando bem no ataque.

O ruim é que quando anuladas as possibilidades de triangulações, restrições de espaço o time não soube superar bloqueios defensivos como os do Avaí, se desesperou e tomou contra ataques. As substituições do Abel não ajudaram, mas o problema foi menos individual dos atletas que tático.

Abel teve o primeiro grande desafio tático e perdeu. Dá pra superar dia 15/03.

No âmbito do elenco temos hoje um elenco mais equilibrado taticamente e até tecnicamente, que em 2017.

Temos duas posições onde os substitutos são uma incógnita em relação aos titulares, hoje: Centroavante e Meia.

Nas demais posições só temos talvez de qualificar mais a zaga, pois entre reservas e titulares muito próximos temos um sub-20 em cinco zagueiros possíveis, precisamos de pelo menos mais um zagueiro pra não ficarmos a pé dentro de um ano com um esquema que exige três zagueiros. Subir o Derlan apenas não adianta, precisamos contratar mais um. E embora eu ache que Reginaldo e Frazan são até melhores que o Gum é fundamental termos jogadores mais rodados ali.

Ibañez é a melhor surpresa em anos na zaga tricolor e é titular absoluto.

Um zagueiro basta.

Nas laterais temos a meu ver o elenco completo e onde temos reservas e titulares fortes o suficiente pra segurar o ano.

Na esquerda Ayrton tá voando, Marlon substitui bem e Mascarenhas voltará pra incendiar a disputa de posição ali estando muito bem no Botafogo-SP. Qualquer um pode ser titular e tem tudo pra fazer um bom ano.

Na direita Gilberto oscila, mas é bom quando assume a parte ofensiva, atuando como ala. Léo é mais lateral direito, tem mais repertório defensivo. Diogo é um bom lateral que precisa se desenvolver e Norton quando jogou ali foi bem, tendo mais um perfil do Léo. é uma posição com menos similaridade entre os disputantes de posição, mas todos tem força pra se manterem como titulares, com talvez o Diogo sendo o quarto reserva.

Como primeiro volante Richard ainda é o dono da posição, mas Aírton tem tudo pra roubar essa posição. Como terceiro reserva temos o Norton (Também podendo jogar de lateral direito) e o Marlon Freitas (que também pode jogar de segundo volante).

Todos são qualificados pra jogaram o brasileiro, temos jogadores a contento pra disputa do ano. Mesmo a torcida vaiando o Marlon Freitas.

A perseguição ao Marlon Freitas é daquelas coisas que pouco é esclarecida pelo bom senso. nunca foi um jogador que se oculta, volta e meia atua indo muito bem como segundo volante, passando bem, arriscando lançamentos que quebram a linha e se apresentando bem na zaga, oscila como todo jovem, mas é tratado como pereba por uma torcida que eu me recuso a ver como inteligente.

Se bem que se a gente pensar que esta torcida queria o excelente Douglas no banco pro Pierre agente começa  entender.

Como segundo volante a posição é do Jadson, e fica até difícil defini-lo como segundo volante e não como meia. Está jogando o fino e demonstra um perfil tático que surpreende, sendo muito superior taticamente ao Wendel, compensando inclusive o abismo técnico.

Como reserva temos o Douglas, o Marlon Freitas e o Caio que tem tudo pra segurar bem a função, sendo por vezes mais defensivos, porém sabendo jogar. O problema médico do Douglas é o único impedimento para sua titularidade, além da grande qualidade das atuações do Jadson, mas ele estando bem substitui Jadson muito bem, com picos de ser melhor ali. Marlon e Caio tem outro perfil, mais forte e com uma presença de área maior, mas menos passadores, com passes mais quebra linha que giradores de bola, mas é até interessante ter isso como alternativa tática.

E ai que temos um problema sério, a criação no meio.

Além do ótimo Sornoza temos a incógnita Luquinhas. O real reserva de Sornoza foi inexplicavelmente emprestado pro Botafogo-SP, estando bem lá, diga-se de passagem, e se chama Daniel, o Danielzinho. Vai tolar? Não se sabe, nunca se sabe, mas se voltar é reserva imediato, tem características similares e passe quebra linhas melhor. Mesmo assim é complicadíssimo termos apenas três jogadores pra função e um adaptável a ela (Robinho).

Acredito que o carro chefe da administração seria investir em um meia e não em um atacante que viria pra disputar posição não com o Pedro, mas com o próprio Robinho e com o Marcos Junior.

Talvez fosse o caso de discutir com o Conca um contrato com um salário inicial dentro da previsão do elenco e que pudesse ir ganhando aditivos com o crescimento de receitas e de produtividade. Sendo hoje uma oportunidade de mercado não vejo porque não investir.

Outra possibilidade é buscar no mercado, e ideal é fazê-lo agora, antes que a véspera do Brasileiro faça com que todos os preços aumentem, e que seja uma busca que traga pra resolver, pra ter um jogador que realmente ameace Sornoza na disputa por posição e o supra em caso de ausência. Hoje só temos o Sornoza, um jogador jovem que oscila, mas pode substituí-lo, Danielzinho, e uma incógnita, Luquinhas.

No ataque eu não buscaria um Aguirre, pois já temos bons jogadores disputando posição como segundo atacante vindo de trás (Marcos Junior e Robinho) e pelos lados (Calazans, Pablo Dyego) e ele não disputaria posição com o Pedro (Hoje titular absoluto), como centroavante e pivô.

Pedro faz hoje um pivô melhor que a maioria dos concorrentes na posição no Brasil, peca na finalização, o que é normal considerando seus vinte anos com poucos jogos entre os titulares, superou sua inércia em campo saindo mais da área e sendo líder de assistência da equipe. Por razões técnicas,por ser oriundo da base e pelo potencial que demonstra eu o manteria como titular e traria alguém pra disputar posição com ele, talvez com características iguais, técnicas e de idade, ou tecnicamente inferior e mais experiente.

Pedro hoje tem como reservas os jovens Pablo Dyego e Dudu, ambos com boa força física e com jogo na área e até podendo jogar pelos lados, mas nenhum deles ainda demonstrou minimamente capacidade de disputar posição fazendo pivô com Pedro, ambos jogam vindo de trás, e só o Dudu parece ter presença de área pra conclusão final.

Podem ser complementos interessantes pra temporada, mas precisamos de pelo menos mais um cara ali pra disputar posição.

Até o Luiz Fabiano, que está vindo de contusão e sem clube, pode ser um bom reforço pra disputa de posição se aceitar um salário a contento e um contrato de produtividade.

Existem inclusive boas apostas sul-americanas que foram bem listadas pelos especialistas em futebol sula americano, como essas dicas do Joza Novalis. Eu pessoalmente iria de Raúl Becerra, Tobías Figueroa ou Jonatán Álvez.

Com dois reforços, talvez três, o Fluminense tem tudo pra viver bem este ano e até morder um título ou uma vaga na libertadores, construindo uma boa base para 2019.

Precisa de mais um meia, um centroavante e um zagueiro.

E não precisa ser medalhão, tem de ir numa boa, investigar e trazer na boa.

E pra isso a diretoria precisa ajudar também, evitar desmontar bons projetos, fazer novas opções péssimas pra imagem do clube, como a  dispensa de jogadores às vésperas do início da temporada, que rendem até hoje entrevistas indignadas em sites e portais.

Além disso falar em fim do Samorin, não organizar direito o organograma do clube retirando a nuvem de mistério que paira sobre o que faz Marcelo Teixeira para além de coordenar a base, a ausência de protagonismo visível do CEO e excesso de protagonismo para Abad, uma comunicação pífia, que não é transparente e pior a sensação de desnorteio que exibe a diretoria, tudo isso atrapalha a própria condução da organização e profissionalização do clube.

Inclusive há pouco tato na costura de algum tipo de diálogo mínimo com quem defendia exatamente isso, como a chapa de Mário Bittencourt e se permite que os profetas do apocalipse e apostadores do Caos, como a chapa de Celso Barros, e cavalos de Troia, como o movimento MR21 que nunca engoliu ter de apoiar Abad, deitem e rolem nesse início de ano.

E a diretoria não pode se iludir, porque uma queda pro Avaí vai trazer de volta o mesmo tipo de ação cotidiana e financiada pelos apostadores do caos nas redes sociais e arquibancadas.

Essa virada seria dificilmente boa pro trabalho bem desenvolvido por Autuori e Abel no futebol.

Esse elenco tem como superar as adversidades e até disputar títulos esse ano com alguns reforços, superando até o elenco do ano passado,mas precisa de um apoio que a diretoria não deu: Erro zero.

O Fluminense que temos está perto do que precisamos e nem tão longe assim do que queremos, mas ele precisa de ajuda do torcedor, do time, do staff profissional, mas especialmente da diretoria.

Erro zero é o caminho, mas pra isso é preciso transparência.

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E se Abel sair em 2018?

E se Abel sair em 2018?
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Leo Percovitch, ex-goleiro do Fluminense nos anos 1990, ex-treinador de goleiros do MiddlesBrough da Inglaterra e atual treinador do sub-20 do Fluminense.

Dias atrás escrevi um post sobre Abel e seu trabalho este ano, enumerando erros e acertos e a relação entre eles e a situação do clube em 2017.

Hoje Abel disse claramente que não garante sua permanência no clube em 2018, e que sua permanência vai depender do Fluminense, mais especificamente de Pedro Abad, presidente do clube.

Provavelmente Abel vai exigir mais investimentos e provavelmente vai ouvir das limitações de caixa do clube e pedirá para ser liberado. Essa situação já foi aventada pelo jornalista Mauro Cezar Pereira,que afirma que segundo apurou Abel não encontrará empecilhos se pedir para sair, embora esteja longe da vontade da diretoria demiti-lo.

Há uma avaliação da diretoria, de parte da imprensa esportiva e da torcida de que mesmo com todas as dificuldades o elenco do Fluminense é melhor do que o trabalho do Abel conseguiu fazer com que se apresentasse. Não discordo de todo, mas acredito que era caso de corrigir rumos e permanecer com o treinador.

Bem, diante do que Abel colocou hoje em entrevista coletiva, de que depende do presidente,parece que estamos diante de uma troca de treinador.

E ai, o que fazer?

Bem, a gente pode apostar, de novo, em medalhão ou fazer algo minimamente parecido com planejamento de futebol com uso do elenco que temos,reforços pontuais, se der, e organização tática, como fez o Botafogo tendo de novo um belo ano,mesmo sem título,lutando pra ir,ainda,para a Libertadores. Ou o Grêmio,que misturando base com reforços que ninguém achava que seriam reforços (Só quem apostava em Cortez e Léo Moura foi a comissão técnica do Grêmio) chegou longe e poderia estar disputando Brasileiro e Libertadores hoje se quisesse.

Ficou óbvio que Abel esse ano foi uma negação tática no segundo semestre,empacou. Tem seus motivos na questão pessoal e na perda de jogadores chaves, criação do clima de liquidação do elenco, etc, mas mesmo assim poderia ter feito um trabalho melhor.Não fez, se ficar poderia corrigir, até está dando declarações sobre isso que faria, mas senão ficar precisamos pensar em quem pode fazer algo.

O mais próximo do modelo tático do Abel seria um treinador mais próximo de Roger Machado ou Eduardo Baptista. Ambos no entanto são pouco parecidos com Abel,mas defendem um futebol ofensivo,com jogadas trabalhadas e posse de bola, nesse sentido são dos mais modernos quem tá mais próximo de Abel. Baptista não tá no mercado e tem rejeição de parte da torcida do Flu e mesmo ele pode rejeitar o Flu, mas é um baita treinador. Roger tem muito mercado e vai ser disputado por meio mundo em janeiro.

Outro que tá no mercado é Guto Ferreira, que é moderno e tem feito bons trabalhos, a demissão no Internacional foi absurda, mas tem um perfil de maior cuidado com a defesa,jogo posicional e ataque reativo.

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Roger Machado, Eduardo Baptista e Guto Ferreira

O Palmeiras indica que não vai ficar com o Alberto Valentim, o que pra mim o tornaria um candidato. É bom treinador,apresenta bons conceitos, pegaria uma equipe disciplinada, cheia de jovens doidos para aprender e lutarem taticamente, poucos medalhões em crise e poderia trabalhar com um elenco talentoso,ávido por conquistas e medalhões disciplinados e conscientes como Ceifador, Henrique e Cavalieri.

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Alberto Valentim

Todos estes treinadores são diferentes de Abel,muito diferentes, todos tem mentalidade tática mais alinhada comas tendências europeia,s tem estilo de treinamento diferente do de boleirão e organizam a defesa de forma posicional e não demarcação homem a homem,mas todos dão a seus times uma organização tática, uma cara que se mantém mesmo em fases ruins.

Baptista conseguiu isso no Palmeiras antes de ser demitido, depois entrou num atribulado caminho e hoje despenca numa Ponte Preta que tem muito pouco material humano pra seu estilo.

Roger foi demitido do Galos em conseguir dar sua cara à equipe, mas lá passou pelo mesmo problema de Baptista no Palmeiras e Fluminense: Muitos jogadores mais velhos com enorme dificuldade, ou preguiça, de se adaptarem a um estilo de jogo posicional,de muita marcação e luta pelo espaço. Guto Ferreira foi demitido porque a diretoria do Inter não queria pagar sua renovação salarial. Não estava tendo o mesmo desempenho de semanas atrás, mas era basicamente isso. Valentim está tampando buraco, sua equipe vem fazendo jogos melhores dos que os com Cuca,mas o Palmeiras busca um treinador “de renome”.

Esses são os caras disponíveis para um tipo de trabalho pensando concretamente em legado, em permanência, em planejamento, uso da base e organização tática.

Enderson dificilmente volta pro Fluminense, faz excelente trabalho no Coelhão e de volta à série A deve ficar por longo tempo.

Não me falem de Luxemburgo, Levir,etc. Abel foi a última tentativa do Fluminense com medalhão se essa diretoria tem algum juízo, o que e parece ter.

O Fluminense também não tem caixa pra um salário milionário com a necessidade de um feroz trabalho tático que dê conta do talento e da juventude da equipe.

O novo treinador precisa ser competente para organizar isso e a diretoria precisa ser firme em mantê-lo como foi com Abel (que também foi pressionado internamente e nas arquibancadas e cuja cabeça foi pedida).

Pensando em caixa, Roger pode ser descartado. Dificilmente não esteja sendo cogitado no Palmeiras, Santos, no próprio Inter e quem sabe onde mais (Flamengo, talvez?). A pedida salarial do Roger ainda permanece alta.

Guto tá na mesma situação de Roger.

Eduardo Baptista viria pra ampliar o caldeirão, de certa forma já sentiria hostilidade de início e não sei se ele hoje pensa em outra aventura ou se prefere,com tudo oque tá ocorrendo, dar um jeito na Ponte Preta. Fora que se eu fosse ele ficaria com um pé atrás com o Fluminense depois da cachorrada que Mário Bittencourt e Peter Siemsem aprontaram com ele.

O que nos resta? Valentim ou uma aposta.

Valentim seria uma aposta,mas uma aposta que vivenciou um clima muito parecido com o clima interno do Fluminense, ao menos o clima tradicional do Flu, A vida no Palmeiras não é fácil nem pra treinador ídolo, vide com Cuca.

Teria em mãos volantes com capacidade de desarme e passe, atacantes de velocidade talentosos, uma boa zaga, um goleiro bom, embora péssimo com os pés,laterais jovens e promissores, dois baita meias e um centroavante de respeito. Poderia fazer chover com uma equipe bem organizada com um 4-1-4-1 de respeito.

Valentim sairia de São Paulo e viria para uma aventura em um mercado que desconhece? Não sabemos, afinal essa é uma especulação.

Se viesse seria ótimo.

Mas vamos direto ao ponto se nenhum deles vier quem contratar? Ninguém, eu subiria o Léo Percovich que tem experiência na Europa, fez todos os cursos do mundo,conhece o Fluminense, vem trabalhando, bem, na base e tem todo potencial de ser um grande treinador.

Se é pra apostar em ultrapassados ou treinadores jovens e com potencial,mas sem grande casca por que não apostar em alguém que tem acúmulo,metodologia e conhece bem o Fluminense desde épocas piores,além de estar antenado com a base?

Usando a frase do Marcelo Teixeira: Se é pra trazer um igual ao que já temos no Fluminense vamos aproveitar quem tá na casa,não?

Com Léo sendo apoiado, acredito que teríamos um com time com Cavalieri,Diogo, Reginaldo, Henrique e Marlon (Mascarenhas). Richard (Marlon Freitas), Douglas (Orejuela), Sornoza e Scarpa. Marcos Júnior (Welington ou Robinho) e Ceifador.

Seria um bom time, que com reforços pontuais ou aproveitamento da base chegaríamos mais longe, desde que sem sabotagem com a venda de peças fundamentais nomeio do ano.

A questão é que o Fluminense precisa fazer no futebol o que está fazendo no clube: Se modernizar.

E pra isso tem que parar de repetir o investimento em velhas fórmulas.

 

Precisamos falar sobre Abel Braga

Precisamos falar sobre Abel Braga

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Abel Braga é um ídolo do Fluminense, todo tricolor sabe disso. Abel Braga também é um treinador rodado, vitorioso, boa praça, todo mundo também sabe disso.

Só que Abelão faz esse ano pior trabalho de sua história no Fluminense, pelo menos em matéria de resultados. Isso é meio indiscutível, porém faz do trabalho, como um todo, um péssimo trabalho? Como o avaliamos?

Bem, há diversos caminhos possíveis. Um deles é o do laço sentimental dominando a parada, Outro é o viés que isenta Abel de todos os erros e culpa o elenco. Há um terceiro que faz o inverso, isenta o elenco e culpa Abel e há ainda um quarto que isenta todos e culpa a diretoria.

Eu proponho um quinto, que nem isenta ninguém nem joga por terra o que tem de bom e aponta caminhos pra que Abel permaneça fazendo o bom trabalho, melhorando onde falhou.

Nessa análise vou optar por não entrar na crítica a Abad enquanto fruto da administração Peter, embora a crítica seja fundamental que ocorra, sem deixar de reconhecer o que Abad fez de bom, e de ruim.

Bem, começando pelos erros, Abel poderia ser crucificado pelas substituições e pelo desempenho, o elenco pode dar mais do que deu, e é melhor do que a torcida cega por reforços enxerga. Só que ai entra também a necessidade de sentir o feeling do técnico e entender as características do elenco, jovem e talentoso.

Abel errou e erra por dar chances extras a jogadores incapazes de corresponder, como Renato Chaves, Lucas, Júlio César, Pierre, Romarinho e Renato ao mesmo tempo que reduziu chances de jovens talentosos que poderiam crescer como Mascarenhas e Daniel. Também trabalhou mal o lançamento de jovens com muito talento, como Pedro, Peu e Luquinhas, e de um bom lateral que sofreu com o excesso de responsabilidade e exposição pra alguém que ainda não tem mental de profissional, como Léo.

A barração do Cavalieri foi surreal, a não titularidade do Reginaldo e a insistência no Léo, abaixo do que pode, como “bom de defesa” foram erros flagrantes do treinador.

Mas Abel acerta, e muito, lançando jovens como Calazans, Matheus Alessandro, Wendel, dando moral pro Douglas, acertando no posicionamento do Sornoza, achando o Richard e recuperando o Marcos Júnior.

Há dúvidas sobre porque Abel demorou tanto a dar mais chances ao Robinho e porque demorou tanto pra sacar o Orejuela, que veio caindo de desempenho e tem sobre si uma dúvida inclusive sobre seu comprometimento, embora a técnica pra posição seja inegável.

Também foi problemática a decisão de emprestar Daniel,único possivelmente com características similares às de Sornoza que com alguma confiança substituiriam o equatoriano mantendo um tipo de mentalidade de jogo que fez com que alcançássemos nossos melhores resultados no ano, e de não aproveitar Lucas Fernandes e trazer Romarinho. Lucas Fernandes inclusive talvez tenha mais talento pra substituir Scarpa em vez de obrigar a adaptar um segundo volante para atuar de meia, como volta e meia Abel faz com Wendel.

Outro problema foi a insistência meses a fio com um meia a menos porque perdeu Scarpa ou espetar laterais e atacantes de lado juntos criando um abismo entre alinha defensiva e a meia, sobrecarregando os volantes. Além disso foi pouco inteligente a insistência num 4-2-4 sem um primeiro volante bom de desarme, coisa que só melhorou como achado do Richard, mas que poderia ter sido resolvida com treinamentos focados do Orejuela e Marlon Freitas para desarmarem ou mesmo mantendo o Marlon Freitas de titular e treinando-o especificamente pra isso.

A perda de Sornoza deixou Scarpa sobrecarregado e Abel ainda não conseguiu solucionar este problema, mesmo tendo meias ofensivos como Robert e Luquinhas à disposição, com o primeiro tendo técnica e visão de jogo pra se adaptar a esta função com alguma sequência.

Há provavelmente outras questões que deixam claros os defeitos de Abel. O problema é que nenhum deles surpreende ninguém que analisa Abel por mais de seis meses. Abel é assim.

Abel conseguiu respostas mais rápidas em 2005, mas em 2011 ele ficou praticamente seis meses dando cabeçada até acertar um time, se sustentando num Fred em sua melhor temporada pelo Flu e em um Sóbis sendo um baita coadjuvante.

Em 2011 o Fluminense não empatava e perdia pra todos os times que jogavam futebol reativo e nos pegavam de calças na mão, isso com um elenco muito melhor em média e um futebol menos intenso que o de hoje. No ano seguinte Abel já tinha um ataque treinado e entrosado e começou a acertar os problemas da defesa e fomos campeões brasileiros.

Em 2017 Abad assume com Abel como treinador e pela primeira vez em quase duas décadas um departamento de futebol estruturado e um CT, mas sem dinheiro nenhum pra contratação. E é a partir daí que começamos a falar dos acertos de Abel, e da diretoria.

Jogar fora que Abel achou um time do nada, usando a base, jogadores voltando de empréstimos e só três reforços, sendo que dois deles caíram absurdamente de rendimento como Lucas e Orejuela, e outro ficou meses fora por uma contusão grave, Sornoza? Não dá.

Abel não apenas achou um time, recuperou jogadores como Welington, Douglas e Marcos Júnior, achou Wendel, Reginaldo, Frazan, Calazans, Norton, Marlon Freitas, Richard, Matheus Alessandro e até Pedro que na partida contra o cruzeiro pela primeira vez mostrou o futebol que o elegeram um dos melhores atacantes da base. Não deu sequência ao Mascarenhas muito por pressão da base que precisava dele depois de diversas perdas pro profissional, mas daria se o Marlon não viesse.

E rapidamente encontrou um futebol com alto desempenho, que parou no Flamengo no estadual e degringolou com a perda do fundamental Richarlison.

Richarlison, que nem o mais otimistas de seus admiradores imaginava que se tornaria o jogadoraço que é em apenas um ano, foi fundamental pra Abel, e sua perda nunca teve recuperação até Marcos Júnior ser recuperado.

O ano todo Abel com um bom elenco poderia ter ido mais longe? Poderia sim, mas não foi, e muito porque nem Abel deu conta das dificuldades do clube e de seu efeito na cabeça dos moleques. Da falta de grana pra investir até todas as especulações em torno de venda de atletas, tudo isso mexe demais com um elenco extremamente jovem.

Junta isso com os problemas táticos e teimosias do Abel e temos muitas explicações pra nossa colocação na tabela.

A diretoria errou exatamente no clima de vendas a todo custo, mas acerta em manter Abel, a estrutura e a ideia de aproveitar a base e jovens jogadores à revelia da histeria de parte da imprensa, torcida e blogueiros boquirrotos, leigos ou experts.

Porque Abel tende a se organizar, a construir um time e aprender com seus erros. Seria assim em 2006 no Fluminense, foi assim em 2012 no mesmo Fluminense e permaneceria sendo se não fosse estupidamente demitido em 2013.

E a diretoria deve à torcida mais que títulos, ela deve estabilidade no futebol depois de quase vinte anos de amadorismo com dinheiro ou sem dinheiro rifando o futuro como foi com Horcades, Peter e seria com Mário ou Celso (Que são corresponsáveis com Peter pela falência financeira do Fluminense).

E estabilidade passa por manter e aperfeiçoar uma filosofia de futebol com base no talento, na tática e na busca do desempenho.

A diretoria nos deve manter o trabalho e aperfeiçoá-lo porque se omitiu diante do que Peter fez com nossas finanças, mas também porque a filosofia tem uma profunda inteligência e faz parte de uma reorganização administrativa que tende a tornar o Fluminense mais forte no futuro: Produção de jogadores pela base mais uma política e administração que reforça o comercial e constrói melhorias sustentáveis. E nisso a diretoria tá de parabéns em manter e fazer.

Dos patrocínios do fim do ano à permanência do Abel, a recuperação financeira com o uso de ativos do clube, como jogadores da base e emprestados, tudo isso passa por um projeto sustentável de grandeza longa pro Fluminense e não arroubos coronelescos ou milagreiros pra salvar um clube que precisa dar um passo além dos discursos marrentos dos Celso Barros que dizem que vão trazer o Messi, mas são responsáveis pelos Marcelinhos das Arábias pra queimar desafeto.

Não adianta gritar Fora Abad ou Fora Abel ignorando o real, o que se tem, a conjuntura, tudo o que o Fluminense passa e o que aponta pro futuro.

Temos a décima quinta cota junto com o Botafogo e outros, temos até hoje um departamento de marketing pífio, que parece ser reformulado agora. 90% dos custos do futebol são com ex-atletas, dívidas e jogadores caríssimos que não temos condições de manter (muitos deles reservas).

A diretoria Abad paga por ter sido fruto da diretoria Peter, e tem mesmo que responder sobre isso, mas também precisa ser avaliada sobre como reagiu ao quadro.

E a meu ver reagiu bem, a reestruturação administrativa tocada a partir da avaliação de auditoria externa me parece ter resultados e a conquista dos patrocínios pontuais no fim do ano, vamos lembrar de como tá a economia do país e que tem muitos outros sem patrocínio máster.

A política pro futebol foi acertada na maioria dos casos. Errou em emprestar Daniel e Lucas Fernandes e em não resolver logo cedo a questão das laterais, especialmente a esquerda onde Mascarenhas poderia ter sido efetivado desde cedo, mesmo que custando caro pro sub-20, e Marlon poderia ter sido trazido mais cedo também, assim como a venda do Richarlison, mas acertou na maior parte do ano. Inclusive trazendo Abel.

A ideia de manter uma comissão de direção do futebol colegiada, com a participação dos profissionais e dos quadros administrativos é excelente. A aproximação do Parreira idem.

Se Parreira não é mais o profissional antenado do passado é ainda um quadro do clube e tende a contribuir de forma inteligente pra uma equipe de direção do futebol com perfil multifacetado.

Abel seguindo no comando vai ter os próprios erros para corrigir, e ele é ótimo nisso, e um elenco na mão. E com ajustes táticos e um elenco firme o ano todo, Abel tende a fazer em 2018 um trabalho muito melhor que o deste ano, no mínimo pra brigar.

Precisa manter Scarpa e Sornoza, trazer de volta Daniel, dar mais chances pro Luquinhas, ampliar o espaço do Robert, manter Welington, Marcos Júnior, Matheus Alessandro, Calazans, Richard, Marlon Freitas e Norton.

Dos mais experientes é fundamental manter Henrique, Cavalieri e Ceifador. Pra compor a zaga temos Reginaldo, Frazan e Nogueira, além de Alan Fialho e outros zagueiros saídos da base que são pelo menos do mesmo nível que o Renato Chaves. Pras laterais precisamos subir o Mascarenhas de vez pra fazer sombra pro Marlon, pra direita é insistir no Norton, aprimorá-lo e dar chance ao Diogo.

Robinho recuperado e desde o início do ano trabalhando com o grupo, Orejuela tomando vergonha são outros jogadores de qualidade à disposição.

Pra negociar acredito que é hora de Pierre, Renato Chaves, Renato, Júlio César e Lucas darem uma volta, irem procurar rumo. Lucas foi bem, mas caiu demais e sempre foi assim. E já deu, é experiente demais pra certos erros e osciladas, e caro.

E Gum precisa sair, precisa ganhar novos ares. Não temos como pagar altos salários para um bom zagueiro com história no clube, mas abaixo do nível do Reginaldo.

Notem que não citei reforços, nem mencionei gasto de grana, mantenho a crença que o Fluminense tem um bom elenco que passou pela prova de fogo este ano e tem tudo pra crescer nas mãos de Abel no ano que vem.

Com um ano menos turbulento, redução de folha com o fim de manutenção de jogadores caros não utilizados e Abel desafiado a ser melhor do que foi podemos ter um ano excelente em 2018,mas precisamos falar sobre Abel, sem binarismo, sem esquecer conjuntura, sem desvalorizar nem supervalorizar um bom elenco jovem e desequilibrado.

Precisamos sim falar, e criticar Abel Braga, mas sem os arroubos tolos de juventudes ultracríticas sem noção de contexto nem a vilania dos grupos políticos, menos ainda a acriticidade dos apaixonados.

Abel tá no primeiro ano de um trabalho que pode ser promissor, vamos respeitar seu tempo, compreendê-lo dentro da conjuntura e de suas características históricas, porque senão seremos injustos e péssimos analistas, mesmo os que usam jargão da análise moderna.

Abel é um técnico que merece críticas, mas também é um bom técnico com características específicas de começo de resultados com equipes e um patrimônio.

Não podemos esquecer disso para a necessária fala sobre Abel Braga.

Eduardo Baptista: Uma vítima da estupidez inexorável.

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Eduardo Baptista foi duas vezes vitimado pela união entre a burrice açodada de uma torcida de clube grande, pela canalhice estúpida de dirigentes e por um medalhão medíocre, mas com títulos disponível no mercado.

Uma destas vezes foi no meu time, a outra agora no Palmeiras. Em ambos os casos el foi fritado sem nenhuma avaliação honesta de seu trabalho nas circunstâncias em que estava trabalhando.

No Fluminense Eduardo Baptista foi julgado por resultados além dos que ele tinha responsabilidade e pelas trocas seguidas de treinadores nas Laranjeiras. Eduardo assumiu o Fluminense em Setembro de 2015 substituindo Enderson Moreira, que substituiu Ricardo Drubsky que havia substituído Cristóvão Borges. Pegou um elenco abalado, com vários jogadores desmotivados, mal tendo tempo de treinar e levou o clube até as semifinais da Copa do Brasil quase superando o Palmeiras e indo à final.

Em 2016 Eduardo Baptista começou o trabalho e em DEZ FUCKING JOGOS, foi fritado porque Levir Culpi estava disponível. Foi pra Ponte, fez um puta trabalho com elenco menos recheado que o do próprio Fluminense e chegou bem ao fim do Brasileiro, à frente de vários elencos melhores.

No Palmeiras perdeu cinco jogos desde que assumiu em janeiro.

Um deles pro Corinthians. Outro na semifinal do Paulista pra Ponte Preta e um pro Jorge Wisterman na altitude na Bolívia.

Segundo o perfil do Twitter @palmeirascouts em Março Eduardo Baptista comandava um time que era líder geral e melhor defesa do Paulista, líder do grupo na Libertadores e possuía 76% de aproveitamento no ano.

Ainda este perfil informa que os números gerais de EB no Palmeiras são:

Média de posse de bola: 61%

Finalizações certas por jogo: 6,6

Finalizações por jogo: 16,2

Passes certos: 82,9%

Média de finalizações sofridas por jogo: 12

Eduardo Baptista deixou o Palmeiras ainda sendo líder de seu grupo na libertadores e tendo números gerais melhores que o de seus concorrentes no Paulista, tendo sido eliminado pelo mal desempenho em uma partida de mata mata.

Havia rumores dele ter perdido o grupo ou da diretoria estar irritada por ele não escalar Roger Guedes, que estava em processo de venda para o exterior e cujo empresário pressionava a diretoria do Palmeiras sobre ele não jogar atrapalhar a venda.

Além disso, a recente explosão de Baptista em uma coletiva, irritado pela óbvia confusão do jornalismo esportivo entre o que é campo e bola, que deveria ser o centro das atenções, e a fofocada que virou este jornalismo, ajudou muito na fritagem geral que Eduardo sofreu, começando pela fritagem feita por diversos jornalistas do grupo ESPN, inclusive por Juca Kfouri, que por mais ícone da imprensa que seja não transformou a publicação da fofocada em jornalismo por um suposto toque de midas midiático.

O Palmeiras em 2017 lembrava o Fluminense em 2016: Passava por um processo de evolução lenta de seu futebol a partir da paulatina compreensão pelos jogadores do que o técnico pensava e do técnico sobre o que os jogadores fariam de melhor em que esquema.

A questão é que diretoria e imprensa optam conscientemente por ignorar estes elementos e fritaram o jovem treinador por uma exigência de desempenho que não tem comparação com o que esta mesma imprensa faz com treinadores de times do exterior e que a diretoria não tem como exigir diante do calendário e do que qualquer time de futebol precisa: Tempo pra maturar.

Apesar da oscilação normal de qualquer equipe nestes meses que antecedem o Brasileiro, quatro meses apenas, o Palmeiras de Eduardo Baptista mantinha uma média de desempenho de boa pra ótima. Talvez só equiparável em graus variáveis ao Fluminense de Abel Braga, ao Corinthians de Carille e ao Cruzeiro de Mano Menezes, sendo que só Abel Braga pegou o elenco este ano, os demais tem o elenco na mão ou conhecem o elenco inteiro há praticamente um ano.

Além disso, Eduardo estava reformulando a tática de um grupo que foi treinado por um treinador de estilo completamente diverso: Cuca.

Abel quando pegou o Fluminense pegou um time que praticamente não foi treinado por Levir Culpi, jogadores eram absolutamente jogados em uma ausência de esquema e cuja liberdade absoluta praticamente esmagava jogadores jovens que não tinham nenhuma ideia de como funcionar coletivamente.

Eduardo pegou um time do Palmeiras mal ou bem treinado, com uma organização na cabeça e funcionando coletivamente. E precisava mudar vários conceitos,pois tem outra concepção de futebol em relação a Cuca. E a diretoria do Palmeiras, assim como a  diretoria do Fluminense em 2016, deveria saber disso.

Novamente Baptista foi sacrificado pela estupidez e pelo oportunismo de  diretorias covardes.

Provavelmente Eduardo Baptista terá problemas para voltar ao mercado se permanecer não tendo mais cuidado na escolha de seus destinos, porém a primeira diretoria que mantiver o apoio a seu trabalho conseguirá resultados no devido tempo. Assim como a diretoria do Grêmio conseguiu com Roger e o Galo fatalmente conseguirá com o mesmo treinador ainda este ano (O Galo de Roger pula na frente do favoritismo ao Brasileiro depois da saída de Baptista do Palmeiras).

Cuca, louvado, pegará um Palmeiras muito diferente do que treinou, com Borja, Felipe Melo e Guerra tendo muito peso aliado às suas personalidades. Cuca já teve problema com personalidades como a de Felipe Melo no flamengo de 2009 e Felipe tem aquele “DNA”. Guerra e Borja tem outro perfil, provavelmente questionarão o treinador se taticamente Cuca não for convincente. Isso se aliando aos problemas que Cuca já teve anteriormente no vestiário do Palmeiras pode ser uma bomba relógio.

Essa bomba implodirá o Palmeiras? Difícil dizer, mas não é improvável.

Eduardo Baptista precisa de clubes com projeto, vai ser difícil no Brasil. Provavelmente irá pro Vitória, que recentemente demitiu Argel, ou pode ser aproveitado por outros clubes de menor expressão na série B, como o Goiás que tem tradição de manter treinadores com bom projeto. Ou até na A, onde alguns clubes estão sempre pressionados a demitirem seus treinadores em caso de maus resultados e alguns tem mais paciência com treinadores, como no Grêmio ou Atlético Paranaense.

A questão é que fica difícil mudar o futebol brasileiro se diretorias e imprensa, inclusive os ditos diferenciados como jornalistas da ESPN, permanecerem rifando treinadores e seus conceitos em nome de um resultadismo estúpido.

É impossível achar que o desempenho está ruim se em 26 jogos um treinador tem apenas 5 derrotas e 66% de aproveitamento.

A estupidez é a única explicação para a demissão de Eduardo Baptista.