Abel e o retorno de um tipo de amor.

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A Torcida do Atlético Nacional de Medellin compôs o seguinte cântico ontem:

Que lo escuchen

En todo el continente

Siempre recordaremos

Campeon al Chapecoense #ForçaChape”

Ao ouvi-lo não pude deixar de me emocionar. Porque tem uma enormidade esse canto, essa torcida e esse clube que transforma tudo em pequenez, todos em menores, e isso é bom, porque essa percepção de consciente pequenez nos permite o aprendizado da melhora.

Aliás, salvo pontuais exemplos de estupidez cotidiana tudo o que envolveu a tragédia com a Chapecoense nos ensinou mundialmente caminhos de melhoria e transformação humanas poucas vezes vistos na história da humanidade.

O que vai permanecer vivo depois do período de luto não sabemos, podemos apenas rezar para que as diversas lições em inglês, francês, português, alemão, árabe, chinês, japonês, espanhol, etc permeie uma renovação no humanismo que fez o mundo um tanto melhor nos últimos séculos.

Sabemos que o mundo tem a velha mania de nos surpreender negativamente, e está aí Trump para não nos desmentir, mas vá lá, quem sabe, episódios traumáticos como esses nos renovem enquanto pessoas.

Não é todo dia no velho e violento esporte bretão que uma equipe solicita à confederação para perder um título e que esse seja atribuído ao adversário abatido por uma tragédia, vamos combinar.

Não é todo dia que brasileiros, das nacionalidades mais egoístas do planisfério, apoiam coletivamente o renascimento de uma equipe que o senso comum colocaria como “Pequena” em nome de nossa estrutural hierarquização e não só, de forma sensível e solidária se colocam exigindo que seus clubes auxiliem concretamente a Chapecoense, inclusive negativando no SPC moral os presidentes e dirigentes que não respeitaram a dor coletiva.

Aprendemos que existe saída nos últimos dois dias e não faço nenhum malabarismo pra incluir a contratação de Abel pelo Fluminense como parte disso.

Por quê? Abel tem trocentos defeitos, mas falta de amor pela vida, pelo Fluminense e pelo futebol não falta naquele corpanzil.

E não só, Abel é ético como poucos, é humano, é vivo, é bom. Nem precisa ser brilhante pra sacar disso.

Abel é dos poucos caras que se expõe com uma coragem do tamanho de seu corpo para exprimir amor, raiva, dor, mágoa.

Abel é gente, Abel é parte da onda boa que é a solidariedade a Chapecó desde anos antes da tragédia, desde que nasceu.

Não é uma sumidade técnica, não é o novo Guardiola, é apenas o Abelão, aquele cara que ama tanto o Fluminense que lacrimeja quando fala que o Fluminense o salvou de ser bandido, da mesma forma que lacrimeja quando fala do Inter tê-lo ensinado a ser grande técnico ou coisa parecida.

Abel volta pra pacificar o Fluminense sem nenhuma revolução tática ou de gerenciamento, nem aversão a elas.

Abel vem fazer seu trabalho, um time competitivo que jogue por amor ao futebol. Às vezes jogará feio, às vezes bonito, às vezes aberto, às vezes fatal como uma cobra, mas sempre lutando e querendo viver e vencer.

Abel chora, deve ter chorado muito ontem, deve ter abraçado seu filho, deve ter abraçado a camisa do Fluminense e a do Inter, deve ter lembrado de histórias, dos abraços em Caio Junior, dos jogadores que treinou, do medo de avião.

Se bobear a tragédia com a Chapecoense o ajudou a fechar com o Fluminense.

Abel tem coração, assim como demonstramos ter alma e coração ontem, hoje e espero que pra sempre.

A tragédia com a Chapecoense nos lembrou coletivamente, e mundialmente, de nossa finitude e do quanto amamos este esporte que fundamenta nossas identidades em cores e escudos.

A tragédia nos lembrou de um tipo de amor que poucas vezes se vê e viu nos últimos anos, mas que estruturou ideologias, cantos, artes, danças, vitórias.

A tragédia nos fez parecidos com Abel, coração grande que bate forte pelo que ama, que ri alto, que luta, que abraça, que chora.

Abel é a cara deste amor, que ele faça no Flu a volta de uma unidade que nos ajude a sermos mais solidários uns com os outros.

Eu preferia Roger, pela possibilidade de revolução tática, mas Abel nos traz a possibilidade de uma revolução anímica, de alma, de amor, de coração.

Não a banalizada raça ou luta, mas amor mesmo, amor, aquele amor que temos por nossas mulheres e homens, filhos, cães, ideias, aquela vontade de cuidar e abraçar.

A gente precisa de Abel pra aprender de novo um respeito e amor que deixamos cair em algum lugar assim como precisamos de uma tragédia para começar a nos respeitar mais enquanto rivais e respeitar mais os profissionais que dão o sangue pelas cores que amamos.

Todos podem morrer amanhã, essa ideia baliza uma necessidade de nos amarmos mais.

Abel pro Fluminense simboliza o retorno deste amor assim como o Atlético Nacional nos ensinou a possibilidade de sermos maiores do que a mesquinharia cotidiana.

Podemos ser melhores, mais humanistas, mais solidários, mais fortes, menos mesquinhos e sectários.

A hora de crescer chegou.

A defesa institucional do Fluminense, as mídias e o futebol brasileiro

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A gestão Peter Siemsem é sempre cobrada a defender a instituição Fluminense e quase sempre de forma categórica, quando não jocosa.

Especialmente desde 2013 a obrigação de defender o Fluminense por Peter Siemsem virou uma cláusula pétrea, quase que um recurso infinito por toda a sorte de torcedores e forças políticas no clube.

E sim, é obrigação do presidente do clube ser um defensor enfático do mesmo.

A questão é pensar um pouquinho fora da caixa e entender os fenômenos que circulam o Fluminense desde 1996 e o quanto o clube foi cúmplice do desmoronamento de sua imagem na opinião pública.

Vejam bem, o Fluminense não foi mais beneficiado na história do campeonato brasileiro e do próprio futebol brasileiro que o Grêmio, o Corinthians, o Botafogo, o Inter, o Clube Atlético Paranaense, o Santos, o Vasco.

Qualquer busca série sobre rebaixamento vai achar polêmicas a respeito da distorção do regulamento do descenso no brasileiro desde pelo menos o fim dos anos 1970. Palmeiras, Santos e Vasco foram beneficiados por mudanças nos regulamentos; Flamengo e Inter em 1987; poderiam ser punidos por terem cometido WO ao não disputarem as finais contra Guarani e Sport por conta das divergências entre CBF e clube dos 13 (a mesma polêmica sobre o título brasileiro de 1987); Grêmio foi beneficiado pelo aumento do número de participantes na série B de 1993; Botafogo e Internacional deveriam ter caído em 1999,mas foram beneficiados pelo caso Sandro Hiroshi, que causou o caos no futebol brasileiro a partir da contestação judicial do Gama e deu na Copa João Havelange, organizada pelo clube dos 13 e que içou o Fluminense e o Bahia ao módulo onde estavam os demais clubes da série A, que abria mais vagas às finais, mas que a rigor não teve divisões, foram todas as divisões unidas em módulos com vagas diferentes às fases finais e que permitiram ao São Caetano ser vice-campeão naquele ano.

Essas informações podem ser encontradas aqui, aqui e aqui.

E o que isso tem a ver com a defesa institucional do Fluminense? Tudo.

Porque desde sempre ocorreram viradas de mesa que beneficiaram um sem número de clubes, mas desde 1996, quando envolveu o Corinthians, com uma cobertura midiática gigantesca, o Fluminense virou a Geni do futebol brasileiro em caso de crise.

Em 1996 cairiam Corinthians e CAP, por manipulação de resultados, além de Fluminense e demais rebaixados, mas pra evitar a queda do “Timão” a CBF, com a anuência de todos os clubes da série A, optaram por mudar as regras e não rebaixar ninguém, permitindo o acesso apenas de quem subiu da série B.

Mas quem virou a mesa? Pra opinião pública o Fluminense, com o ornamento de Álvaro Barcellos estourando champagne.

Depois de ser rebaixado novamente em 1997 pra série B e em 1998 pra série C o Fluminense se reergue a duras penas em 1999 sob a direção de David Fischel na presidência e de Carlos Alberto Parreira na direção técnica, empréstimo de prestígio, reforma no vestiário, etc.

Lutando como poucos o Fluminense venceu a série C. Lutando também contra a pecha de “rei do tapetão” ao corretamente denunciar o São Raimundo por escalação irregular de jogador naquele brasileiro.

Lutando no campo e fora dele o Fluminense subiu pra série B e a disputaria se o caso Sandro Hiroshi não causasse o caos que fez o Brasileiro ser disputado por 116 times.

Essas colocações todas são feitas diuturnamente pela torcida do Fluminense e essas informações estão disponíveis cotidianamente na internet com as mais variadas fontes possíveis, mas porque a imprensa insiste em atacar o Fluminense como “Rei do Tapetão”?

Poderia listar inúmeras razões, do baixo nível técnico médio do jornalismo esportivo à desonestidade intelectual, passando por linhas editoriais favoráveis ao “passapanismo” com relação a clubes que dão mais audiência às emissoras. O fato é que raros são os profissionais como Sérgio Xavier Filho, PVC, Mauro Betting, Leonardo Bertozzi que saem do selo Alexandre Oliveira, Gian Oddi e Diogo Oliver de “qualidade”.

A questão também passa pela defesa institucional do Fluminense, algo que voltou a ser necessária a partir de 2013, quando por causa do erro da Lusa o Flamengo não disputou a segunda divisão de 2014.

E essa defesa é cobrada apenas da gestão Peter Siemsem, ignorando que desde 1996 os ataques ao Fluminense foram e são recorrentes, diante de qualquer busca que o clube faça por seus direitos nos tribunais, e nunca essa defesa foi feita.

Sim, Peter falhou gigantescamente ao adotar a mesma tática das gestões anteriores esperando que o Fluminense fosse respeitado como os demais clubes, algo que não ocorreu. Porém, desde 2014 o Fluminense tem uma defesa institucional, e coletiva por parte da torcida, digna de seu tamanho.

O clube não esmorece deixando claro que a posição de Geni pode até ter colado antes, mas que agora tem defesa e a torcida idem, porque oposição e parte da torcida ignora essa feroz defesa institucional recente? Apenas política ou ignorância também?

Nunca tivemos defesa institucional desde que caímos em 1996. O clube jamais se pronunciou de forma enfática contra a fama, jornalistas tricolores jamais se posicionaram, escritores idem, porque apenas Peter recebe a cobrança, sendo que foi o único que moveu enquanto presidente essa defesa?

É importante salientar que pro Fluminense o rebaixamento foi duro em diversos aspectos. O contexto de clube esfacelado em 1996, a tomada do poder por forças com objetivos escusos, a ideia de ter passado do clube portador da taça olímpica à ameaça real de deixar de existir em 1998, tudo isso pesou demais pro Fluminense e sua torcida terem passado o inferno e terem focado praticamente todas as forças possíveis na retomada do poder esportivo, com enorme auxílio da Unimed.

De 2000 em diante a retomada esportiva foi o foco do clube, acreditou-se que após o título da Copa do Brasil de 2007, Brasileiros de 2010 e 2012 todo o passado teria sido deixado pra trás e o respeito demonstrado, a contragosto, pela opinião pública formada pra tratar o Fluminense como sub Olaria estaria consolidado. Até que em 2013 a Lusa salvou o Flamengo e assim como em 1996, quando o Corinthians foi salvo do rebaixamento pela mudança de regras, foi necessário usar o suspeito de sempre pra livrar mais um queridinho da lama.

E o Fluminense é sempre o suspeito preferencial.

A questão é que antes, de 1996 a 2013, o clube estava tão preocupado em esquecer o passado que achou que a tempestade havia passado, hoje sabe que não passa ou passará e a cada lura por seus direitos vai ter de enfrentar essa máquina de formação de distorções chamada “jornalismo” esportivo.

O caso Meira Ricci TV é sintomático. Diante da luta pela anulação de uma partida por erro de direito ameaçar o Flamengo que se dane se a regra foi desmontada, quebremos a cabeça do Fluminense, que pra parte estúpida, pouco profissional e canalha da imprensa esportiva não tem nenhum direito a nada pro ser Geni.

E por que isso? Porque se essa imprensa for profissional e correta ela vai passar a atacar times grandes de seus estados e isso vai pegar mal com a audiência. E entre a correção profissional e a audiência cês acham que um Diogo Oliver ou Alexandre Oliveira vai ser correto profissionalmente como o PVC?

Diante dessa máquina de propaganda o Fluminense faz muito bem em se manter firme na defesa de seus direitos e da correção no cumprimento das regras e já que terá de lutar contra a canalhice de um jornalismo servo de qualquer maneira, que faça jus à tarefa, como vem fazendo.

 

A taça do teu rival não precisa ser diminuída pra valorizar as do seu time, parça!

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Das coisas que não consigo compreender: O futebol brasileiro é formado de forma absolutamente diferente do planeta inteiro,mas existe gente em 2016 que consegue disputar que clube é maior, que taça é melhor.

Explico: O futebol brasileiro nasce de ligas estaduais que disputaram praticamente meio século de campeonatos restritos aos estados onde os clubes se originaram.]

Dai o número de clubes grandes no país ser enorme.

Tem clube grande no país todo, com torcidas enormes, superiores às torcidas de muitos dos clubes europeus que disputam a Liga Europa, por exemplo, e até a Champions League.

As primeiras competições nacionais foram os interestaduais que surgiram pós-1950.

Os torneios nacionais surgidos de 1959 a 1970, a Taça Brasil e o Robertão, foram equiparados ao campeonato brasileiro que passou a ser organizado de 1971 até hoje pela CBD, e atualmente pela CBF.

Apenas em 1948 surgiu uma competição internacional na América do Sul, o sul americano vencido pelo Vasco (que reivindica, a meu ver corretamente, sua equiparação à libertadores).

Em 1951 e 1952 organizou-se no Brasil a Taça Rio, que a FIFA recentemente reconheceu como mundial.  Apenas a partir de 1960 organizou-se o torneio intercontinental  que foi considerado mundial até a FIFA passar a organizar, em 2000, o mundial de clubes da FIFA, sendo que mesmo este só se consolidou posteriormente, em 2005, quando a FIFA retomou a organização do mundial e não mais a interrompeu. De 2000 a 2005 os campeões do torneio intercontinental também foram reconhecidos como campeões mundiais.

Em resumo: Temos uma diversidade enorme de títulos dos clubes brasileiros entre estaduais, nacionais e internacionais. Todos, absolutamente todos, conquistados com talento e suor por parte de seus campeões.

Mas torcedores insistem em reduzir o título alheio para valorizar o seu.

Jura que o mundial de 2000 do Corinthians vale menos que o mundial de 2005 do São Paulo porque o Corinthians não entrou nesse mundial como campeão da Libertadores? Entrar como representante da sede fez o Raja Casablanca ser menos finalista do mundial de 2013?

Jura que o mundial do Palmeiras de 1951 e do Fluminense em 1952 vale menos que o título do Corinthians em 2000 ou que os Torneios intercontinentais de 1960 a 2000 ou que os mundiais de 2005 até hoje porque os clubes brasileiros não venceram a libertadores que não existia?

Rivais menosprezando a taça Olímpica do Fluminense, enorme honraria recebia do COI pelo Fluminense ter sido reconhecido em 1949 a “maior e melhor organização esportiva do mundo”, sendo o Fluminense Football Club o único clube de futebol do mundo a ter essa honraria, não são raros.

Da mesma forma a necessidade torcedora de transformar títulos em “lixo” em nome de uma “valorização” de suas conquistas é algo que a mim soa como surreal.

Que sentido faz?

Não reconhece o título do rival? Parabéns pra você, porque em maior ou menor escala o mundo do futebol reconhece a maior parte dos torneios vencidos e unificados e regulamentados, porque é uma tendência da FIFA pra todas as confederações internacionais e nacionais a organizar os títulos de acordo com sua similaridade. É uma forma de organizar a própria história e tentar criar uma régua de identidade entre todos os centros de futebol e sua diversidade de organização e surgimento.

E faz parte da história de cada clube suas conquistas.

Respeitar a conquista do outro é fundamental para a existência inclusive da rivalidade.

E é sintoma de pequenez tornar o outro “menor” porque não tem aquele título que você tem. É como o Vascainismo Eurico Miranda ostentando sua Libertadores enquanto chafurda na série B pela terceira vez. Ou o rubro negro pernambucano e o carioca disputando quem foi campeão em 1987 ou o corintiano, que teve seu título mundial de 2000 contestado por São Paulinos e santistas, contestar o titulo mundial do Palmeiras em 1951, e também os do SPFC em Tóquio antes de 2000.

Ninguém percebe que essa contestação é na verdade  um tremendo recibo de que valoriza demais aquele rival que chama de menor?

Cê não acha que o Fluminense é campeão mundial em 1952? O que que eu vou fazer? Eu não consigo não ver o Vasco campeão da Libertadores de 1998 e antes do sul americano de 1948, dois títulos de mesmo peso, pra mim duas Libertadores. Não consigo ver ganho algum e dizer que a História não houve.

Não dá pra apagar manchetes de jornais em 1951 e 1952 de Rio, MG e SP dizendo que Palmeiras e Fluminense foram campeões mundiais.

Não dá pra fingir que não houve mundial em 2000, eu fui ao Maracanã e o clima da cidade era de euforia.

Não dá pra ignorar que o Flamengo foi campeão da copa união em 1987 e que isso é considerado brasileiro por pelo menos meio futebol brasileiro, e que também o Sport foi campeão em 1987 e que a luta ente CBF e clube dos 13 produziram um impasse que apenas o reconhecimento de ambos como campeões pode resolver.

Não concorda? Paciência. E paciência se o STF diz que só o Sport foi campeão, o buraco é mais embaixo, a história mais complexa.

A vida fica mais inteligente quando a gente deixa de ser bobo disputando bobagem enquanto tem tanta coisa pra disputar, como cotas de TV igualitárias, campeonatos mais equilibrados, arbitragens profissionais, calendário que preste,etc..

Vamos nos reconhecer como gigantes de deixar de bobagem?

A culpa não é de Neymar e Micale, Galvão! Sobre Futebol Brasileiro, Fluminense e pensamento mágico

Marín preso...

O futebol brasileiro está em profunda crise, e uma crise que tende a se aprofundar.

E por que? Porque pouca gente além de profissionais do esporte, entre técnicos e jogadores, tem alguma ideia real de tentativa de superação dos diversos problemas que o futebol brasileiro tem.

Apontar a culpa da crise do futebol brasileiro somente aos dirigentes, sem incluir torcida e mídia, é como dizer que a culpa do aquecimento global é da humanidade, sem apontar as causas diretas (Indústria do petróleo e agrobusiness, além da cultura do consumismo), fica até bonito,mas é inócuo, quando não é hipócrita e cínico.

No caso específico do futebol a tentativa de culpabilização individual de atletas, técnicos e dirigentes, sem entender o contexto global, inclusive incluíndo a torcida no esquema, é tipo a fase de negação de parente de doente terminal.

No mesmo dia a torcida da seleção brasileira e a do Fluminense entraram em polvorosa com os resultados dos jogos de suas paixões. Embora entenda a fustração, me fica na cabeça a quantidade de ilusão e pensamento mágico que sustentou suas ilusões.

Sim, os resultados foram de ruins a pavorosos, mas qual a razão deles? Dizer que foi culpa de Douglas ou de Gum ou do William Matheus no caso do Fluminense, ou do Neymar e do Micale ou Renato Augusto no caso do selecionado canarinho é tipo culpar o Cheetos por um câncer no baço.

Por que digo isso? Porque é preciso olhar com carinhos pros problemas pra resolvê-los.

Temos na seleção brasileira um trabalho que tinha uma perspectiva de resultado baseada num planejamento tardio, que começou à vera em 2015, mas incluía troca de comando de Micale pra Dunga, com uma perspectiva de Micale tentar aproximar seu trabalho ao de Dunga, e que depois mudou completamente pra um trabalho solo de Micale sob supervisão de Tite, que não é nem Dunga nem Micale e tá pouco próximo do primeiro em concepção tática e sequer teve tempo de influenciar o trabalho do segundo.

Daí a seleção olímpica ganhou um técnico próprio, que era antes o interino que teve quinze dias pra fazer da convocação um time, tendo perdas importantes como Douglas Costa, e erros na convocação de Renato Augusto ( Erro esse que só foi apontado pela imprensa agora que deu ruim), enquanto se preparava pra enfrentar seleções com trabalhos duradouros, e bons, como Iraque e África do Sul  por exemplo.

No caso do Fluminense temos o segundo técnico do ano e terminamos em fins de julho a segunda reformulação do elenco.

Reformulação essa que retirou o esqueleto da primeira reformulação organizada em Janeiro (Diego Souza e Fred), alterando profundamente o modo de jogar do time, de forma mais radical ainda que a troca entre Eduardo Baptista e Levir Culpi.

De um time organizado em torno da figura do centroavante e de um meia com altíssimo poder de finalização,mas pouca mobilidade e combatitividade partimos pra um time extremamente veloz, móvel, mesmo com Dourado, com laterais avançando de forma alternada e com mais preocupação defensiva que ofensiva, quase que acompanhando a linha de volantes, volantes criativos que armam o jogo para que o quarteto ofensivo produza uma ofensividade sustentada na intensa movimentação com finalização a partir de troca de passes que abram flancos pro arremate ou pro cruzamento no jogo aéreo.

Perceberam a guinada? E quando foi feita? Junho/Julho de 2016. Estamos em Agosto, ou seja, é óbvio que essa transformação, inclusive com a perda de um ícone do elenco e do clube, Fred, traria consigo uma oscilação e desequilíbrio psicológico, e até anímico, e uma dificuldade em manutenção de regularidade, especialmente fora de casa.

E não, não é desculpa, é análise.

Esse tipo de não planejamento das diretorias de futebol em geral possui 90% das “culpas” pela ausência de resultados.

Com uma reformulação de elenco ou trabalho em meio ao campeonato a tendência pro elenco demorar a se acertar e demorar a ter resultados é gigantesca. Dane-se a qualidade deste elenco.

Treinadores competentes produzem trabalho mesmo com elencos limitados, mas mesmo o mais genial treinador e elencos precisam de uma coisa que o futebol brasileiro com sua pressa suicida esqueceu: Tempo.

Se você observar o futebol brasileiro com olhos do senso comum de 1970 (Matriz de 90% das referências “teóricas” da torcida pro futebol de hoje), vai achar tudo ruim e tudo o que escrevi um tremendo blábláblá, mas se você for um sujeito minimamente atento e antenado ao futebol DE HOJE vai olhar pros dois exemplos citados e perceber que os dois trabalhos tem avanços em relações aos anteriores e com tempo devem germinar em promissores resultados, talvez no médio prazo.

Ah, vocês queriam resultado imediato? Lamento,mas não tem lógica, porque não tem mágica.

A tendência da seleção brasileira é ser eliminada na primeira fase, e sendo mantido o trabalho resultar num puta time pra 2018.

A tendência do Fluminense, se mantido o elenco e o trabalho de Levir, é formar um puta time pra 2017 e daí em diante. Em 2016 pode ser que dê resultado na Copa do Brasil e vá lá um G4 em caso de muito milagre.

Agora, se vocês acharem que trocar técnico a cada dez minutos, que mandar jogadores embora e vaiar times recém formulados porque o time para o qual torcem não é mais o de Rivellino que vocês acham, erroneamente, que jogavam sem técnico, lamento, porque além de sofrerem com o resultado, permanecerão sendo parte do problema.

Porque se você pensa, e eu li isso, que depois desses três resultados da seleção brasileira toda a geração é ruim, você é parte do problema.

Porque se você acha bonito o chilique do Galvão, que jamais critica a ausência de planejamento, a corrupção, a desestruturação da base, o calendário do futebol brasileiro, a desadequação do calendário diante da Europa, a ausência de controle pelos clubes deste futebol, etc, você é parte do problema.

Porque se você transforma futebol em entretenimento você é parte do problema. Se você julga jogador individualmente sem entender do sistema de jogo você é parte do problema.

Se você olha pro time do Fluminense é é capaz de por puro tolice dizer que Douglas não é jogador (Um volante extremamente técnico que com 19 anos é fáscil um dos melhores do campeonato,na prática em em números) ou que Gum é “Horroroso e devia ser doado”, sendo ele um dos melhores zagueiros de uma das melhores defesas do campeonato, que Wellington Silva é péssimo (Líder em desarmes do Fluminense e um dos líderes do campeonato) ou que Scarpa “era uma ilusão” ou que Welington foi uma contratação “desnecessária” e Marcos Junior é “burro e ruim de bola”, você é parte do problema.

Sim, amigo torcedor que vaia time porque o resultado do time, dane-se a atuação, não foi o que tu desejava ou que pede “raça” em um time que tá se rasgando em campo porque de alguma forma o resultado não funcionou, você é parte do problema.

Chega a ser lamentável o nível do torcedor brasileiro nas redes sociais e arquibancadas.

E ele é assim porque é mimado, embriagado de pensamento mágico e tosquice mitológica por uma imprensa avessa ao raciocínio e mãe da emoção mais emburrecedora possível.

Duvida? Veja a Globo e a SporTV todos os dias, ouça a maioria dos comentaristas, ouça Alê de Oliveira na ESPN, veja Fox Sports Radio. Veja um jogo onde cada comentário acertado do Calçade é demolido pela estupidez de almanaque do Zé Elias.

Pra cada PVC, Mauro Cézar Pereira, Calçade, Raphael Rezende, Raphael Oliveira, Gustavo Hoffman, Mário Marra, Mauro Betting, Leonardo Bertozzi e outros tantos que remam contra a maré da estupidez coletiva no futebol há seiscentos Zé elias, Alê Oliveira, Edinho, Roger Flores, etc…

E por isso as torcidas são reflexo de um pensamento mágico que morreu nos anos 1980 e fede até hoje.

Há quem escreve em blogs “Romário, Rivelino, Thiago Silva nunca precisaram se adaptar a elenco nenhum!” e se orgulhe disso, e há quem siga essa mentalidade.

Há quem chame Kenedy de pereba, Gerson de nulidade e Welington de superestimado e siga ai com espaço rpa permanecer mugindo.

Há quem compare Neymar com Marta, que é a mesma coisa que comparar Phelps com Hortênsia.

Enquanto isso os clubes e seleções permanecem tratando o tempo como se fosse irrelevante.

O G4 do brasileiro é composto de times que trocaram de técnico esse ano,mas que mantiveram elenco e fizeram troca de treinadores sem mudanças bruscas de perfil, ou fizeram isso com tempo pro elenco e treinador se ajustarem.

Quem trocou técnico recentemente tem o mesmo elenco desde janeiro, com alguns acréscimos, nenhuma perda.

Mas quem analisa isso?

Quem analisa isso não tá nas emissoras com maior audiência ou são comentaristas centrais de suas emissoras, exceto na ESPN. Não está nas rádios, não organiza clubes, não gerencia futebol, não tem calma.

Como bem escreveu Mansur, o futebol brasileiro tem pressa e essa pressa é inimiga da perfeição.

E depois, confundindo pressa com velocidade, culpa jogadores por serem afobados.

Não aprenderam nada com Fernando Diniz e o Audax.

Rubinho não conhece História, Nós somos a História.

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A FFERJ nasceu em 1978, o Fluminense em 1902. O Flu nasceu antes de TODAS as associações, ligas e federações do Rio de Janeiro, e nacionais.

O Fluminense fundou o futebol brasileiro no Rio. Inaugurou no Rio a prática de futebol. A FFERJ nunca vai sequer chegar perto do dedão do pé do que é o Fluminense.

Rubens Lopes e sua fanfarronice não passarão.

Segue a lista:

Período

Distrito Federal / Estado da Guanabara

Antigo Estado do Rio de Janeiro

1906

Liga Metropolitana de Football

1907–1911

Liga Metropolitana de Sports Athleticos

1912

Liga Metropolitana de Sports Athleticos
Associação de Football do Rio de Janeiro (registrada em cartório tornando-se oficial, pois não havia órgão centralizador de football, a FBS/CBD (atual CBF) só foi fundada em 1914)

1913–1914

Liga Metropolitana de Sports Athleticos após fusão da AFRJ com LMSA

1915–1916

Liga Metropolitana de Sports Athleticos Liga Sportiva Fluminense

1917–1918

Liga Metropolitana de Desportos Terrestres Liga Sportiva Fluminense
Associação Fluminense de Desportos Terrestres (dissidentes)

1919–1923

Liga Metropolitana de Desportos Terrestres Liga Sportiva Fluminense

1924

Liga Metropolitana de Desportos Terrestres
Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (dissidentes)
Liga Sportiva Fluminense

1925

Liga Metropolitana de Desportos Terrestres
Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (dissidentes)
Liga Sportiva Fluminense
Associação Fluminense de Esportes Athleticos (dissidentes)

1926

Liga Metropolitana de Desportos Terrestres
Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (dissidentes)
Federação Fluminense de Desportos
Associação Fluminense de Esportes Athleticos (dissidentes)

1927–1932

Liga Metropolitana de Desportos Terrestres
Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (dissidentes)
Associação Fluminense de Esportes Athleticos

1933–1934

Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (amadora)
Liga Carioca de Football (dissidentes sem vínculo com a CBD/CBF) (profissional)
Associação Fluminense de Esportes Athleticos (amadora)
Federação Fluminense de Esportes (profissional)

1935–1936

Federação Metropolitana de Desportos (profissional)
Liga Carioca de Football (dissidentes sem vínculo com a CBD/CBF)) (profissional)
Associação Fluminense de Esportes Athleticos (amadora)
Federação Fluminense de Esportes (profissional)

1937–1940

Liga de Football do Rio de Janeiro Associação Fluminense de Esportes Athleticos (amadora)
Federação Fluminense de Esportes (profissional)

1941–1959

Federação Metropolitana de Futebol Federação Fluminense de Desportos

1960–1977

Federação Fluminense de Futebol Federação Fluminense de Desportos

Fonte: Wikipedia

O sistema futebol e a cara do Rubinho ou Sobre transformações/ In Bezug auf Transformationen

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Por Gilson Moura Henrique Junior

Transformações ocorrem o tempo todo no mundo. No futebol, no entanto, o Status quo tende a manter, com luxuoso auxílio midiático, a impressão que tudo está na mesma eternamente.

Se fora de campo essa premissa faz algum sentido, dentro do campo é um rematado disparate.

Pouca coisa é tão dinâmica que as evoluções táticas no futebol. Em relação às dinâmicas das transformações sociais pode-se inclusive dizer que há revoluções constantes no futebol. Não é maluquice dizer que a cada geração a tática e a técnica futebolística dá saltos e revoluciona-se de forma absolutamente impactante.

Na América do Sul e na Europa há constantes transformações no modo de jogar desde o início do século XX, e elas não tem espaço maior que vinte anos entre elas.

Os últimos impactos, cuja dor maior sentimos no cabuloso 7×1, nasceram pelas mãos de Mourinho e Guardiola (Ou vice-versa) e receberam forte apoio de Heynkes, Klopp, Ancelotti, entre outros. No Brasil esses ecos chegaram a Tite, Eduardo Baptista, Levir Culpi, Cuca, Aguirre (Uruguaio, mas….), entre outros.

Essas mudanças sempre partiram das transformações a respeito de posicionamento e função. Além de, desde os anos, 1970 se pautarem pela unicidade entre o trabalho de fortalecimento físico, visando o rendimento máximo do jogador, como ferramenta de ampliação e otimização da técnica.

Atualmente essas mudanças têm visibilidade maior na Europa devido às grandes diferenças econômicas entre Europa e a maioria dos países de fora da Europa, com exceção da China. E por que essa visibilidade maior? Porque o poderio econômico permite a perscrutação dos melhores jogadores do planeta para times Europeus, e melhores jogadores executam melhor os planejamentos táticos.

Simples, né?

Pois é, mas essa concentração de jogadores não transforma magicamente tudo o que é Europeu em ponta de lança da modernidade, nem o inverso, nem tudo o que é brasileiro é cabeça de ponte do atraso.

Há a percepção das mudanças táticas também no Brasil e só não executamos essas revoluções com maior eficácia hoje porque nossos melhores valores saem do país rápido demais.

E para mudar essa situação não basta simplesmente dar canetadas, é preciso que ocorram transformações macroeconômicas e politicas dentro e fora do sistema ecológico futebol.

Essas transformações externas ao mundo do futebol ainda não ocorreram totalmente, mas dentro, pela primeira vez temos indícios de estarem ocorrendo.

Além de toda balbúrdia do affair FBI/FIFA, que atinge a CBF, entre outras confederações, há a organização dos clubes que primeiramente a partir da Primeira Liga começam a impor sérios danos à estrutura das Federações e CBF no Brasil.

O recente recuo da FFERJ na absolutamente obtusa proibição a Fla e Flu de jogarem a Primeira Liga, ocorreu após a Primeira Liga praticamente informar ao sistema Futebol: 15 dos principais clubes do país vão resistir, vocês realmente querem isso?

Pois é, não quiseram, por mais que Rubens Lopes (E também, pasmem, boa parte da mídia) tenha tentado dizer que não.

A derrota da FFERJ e da CBF parece pequena, mas é como aquelas rachaduras em parede de represa, é das pequenas que surgem as inundações.

A demonstração de força dos clubes não é, ainda, uma revolução, mas é um enorme passo para isso.

Vai encontrar resistências? Sim, inclusive entre os clubes não alinhados.

Os clubes de São Paulo não quiseram juntar-se à Primeira Liga e vários fortalecem a FPF e a Globo na disputa por direitos de TV e também pela manutenção da organização de campeonatos pela CBF. Esse fator tem razões múltiplas, e boa parte delas perpassam as vantagens econômicas que o trio de ferro do futebol Paulista e o Santos recebem da televisão, sem contar com o peso político da FPF, e sua boa relação com TV e os clubes, junto a CBF. Del Nero, último (Ex-) presidente (indiciado pelo FBI) e Marin (ex-presidente da CBF indiciado pelo FBI) foram presidentes da FPF.

Vasco e Botafogo participam dos golpes da FFERJ contra Flamengo e Fluminense.

No entanto, não é desprezível que quinze clubes de série A e B tenham demonstrado força suficiente para mover montanhas aparentemente imóveis.

Além disso, as Ligas Norte e Nordeste também já demonstraram uma certa percepção com bons olhos a respeito das movimentações da Primeira Liga.

E surge no horizonte também uma articulação para não só formar uma associação entre clubes das séries A e B e também com o lançamento de um candidato dos clubes à presidência da CBF e pelos nomes cogitados está clara a articulação entre Primeira Liga, Liga do Nordeste e uma fissura no bloco paulista com a participação do Santos.

Ou seja, a mudança para o nascimento da Primeira Liga em 2016, com recuo de CBF e Federação Carioca, é só parte de um quadro bem mais complexo e que pela primeira vez sugere transformações que podem ser bastante profundas na estrutura do Futebol.

Não é maluquice ver nestas transformações partes de uma outra mudança: O fim do monopólio da Rede Globo no fomento econômico e controle dos direitos de TV dos campeonatos.

Com a chegada de gigantes como Turner e Fox ao Brasil já ocorreram abalos fortes no monopólio Global sobre as transmissões. Agora com a Turner entrando com um cacife maior econômico na negociação pelos direitos do Brasileiro na TV fechada o quadro de transformação ganha novos capítulos, ainda mais se considerarmos que a Rede Globo está em aparente crise econômica, inclusive fazendo reengenharia nas suas estruturas de jornalismo, e esporte, como na junção das redações de Rádio, TV e Internet em SP e RJ.

Ou seja, há um choque de modernização capitalista no futebol brasileiro (E mundial, afinal o FBI não entrou de sola na FIFA por amor à verdade) e estamos vendo fora de campo mudanças estruturais e táticas que achávamos só possíveis dentro das quatro linhas a partir de gênios da bola e da prancheta.

Agora é preciso que observemos, com cuidado e alguma alegria, o que o futuro nos reserva.

Atualização: Em 25/01 a CBF voltou a “proibir a ligas” e os 15 clubes voltaram a peitar CBF e federações, recebendo apoio à resposta via redes sociais via hashtag #juntospelaprimeiraliga e de praticamente toda a imprensa. No segundo round os 15 clubes voltaram a mostrar força.