Ver futebol, Wenger e Abel

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Ver futebol é a antítese da clareza racional.

Não, não porque o torcedor seja uma besta quadrada motivada apenas por urros e apupos, um simiesco homúnculo irracional, mas porque torcer é, antes de mais nada, pôr à prova identidades, esperanças, amores, horrores.

O melhor jogador do mundo que eu vi jogar foi Don Romero trajando a camisa sete do Fluminense.

Nelson rodrigues já definiu que se os fatos contradizem frases como a colocada acima, pior pros fatos. E não, ele não estava fazendo um tratado sob a negação do óbvio, mas sob o ponto de vista da percepção do torcedor.

Objetivamente, os melhores jogadores de todos os tempos que eu vi jogar devem incluir Maradona, Messi, Romário, Zidane, Platini, Falcão e… Zico, mas objetivamente é um termo que não explica porque não consigo claramente perceber a genialidade de Zico senão com aquele esgar de rancor e fúria relativo a gols de falta em Juiz de Fora.

É difícil explicar para outros torcedores o tamanho de Parreira sob meu olhar, ou de Thiago Silva ou Thiago Neves, Fred, Aldo, Branco, Ricardo Gomes…

Abel é mais fácil, aquele jeito bonachão gente boa facilita que ele seja sonho de consumo e percebido como parte do imaginário do futebol como um ente independente do Fluminense, embora marcado por ser tricolor.

E é aqui que lendo Nick Hornby sobre Wenger dá pra entender as diferentes leituras sobre Abel recentemente. Gerações diferentes percebendo o Fluminense de forma diferente e tendo em torno disso uma reação dispare.

Abel fora chamado de burro em 2012 e seis anos depois permanece sendo, mesmo diante de elencos enfraquecidos e dificuldades em lidar com as transformações do futebol ele permaneceu aguerrido a uma lógica de futebol que eu não consigo deixar de apoiar.

Abel está longe de ser o técnico de 2012 eu futebol hoje exige que ele seja diferente e exige dele algo que ano passado ele não conseguiu fazer, mas esse ano parece que está conseguindo: Um time competitivo e moderno.

Há torcedores da minha geração, que inclusive passaram por anos de trocas de técnicos medíocres por outros técnicos medíocres e elencos piores ainda que percebem em Abel o cara que consegue fazer de elencos ruins um time e um time que honra aquilo que sonhamos, mas gerações mais recentes, acostumadas com uma análise tática menos emotiva e com elencos fornidos não enxergam por vezes o papel de Abel, e ai ele vira “ultrapassado” e “burro”.

Abel em 2012 juntou o amor pelo resultado com um time que jogava ligado à torcida. Fomos campeões brasileiros sem sofrer, ao contrário de 2010, e sem temer que o técnico saísse pela janela em busca de salários maiores.

Abel em 2017 sofreu com trocas de jogadores, reposições ruins e as próprias oscilações, mas seguiu e seguiu cumprindo oque prometeu, construindo um time competitivo com o que se pode conseguir na situação atual do clube.

E com tudo isso, qual a relação entre Wenger e Abel? Assim como Nick Hornby eu não analiso tão racionalmente assim pra escrever oque escrevi acima, ei inclusive torço para que o que escrevi acima esteja correto, porque Abel é um patrimônio do Fluminense.

Meu olhar pro jogo olha as linhas, as entrelinhas e os subtextos da tática incorrendo na paixão detalhada por um clube e um técnico inerentemente ligado à ele.

Veja bem, estamos falando de um técnico que é o segundo que mais dirigiu o Fluminense em todos os tempos e treina um clube onde Parreira treinou num brasileiro de série C abandonando uma carreira na Europa em nome da salvação do tricolor.

Estamos falando de um treinador que consegue estar acima de Parreira no panteão de ídolos da casamata, mesmo Parreira ainda sendo ídolo e ter feito oque fez, incluindo um título Brasileiro comandando Don Romero.

A clareza racional aparente na análise da linha de cinco, no avanço dos alas, na amplitude, nos gols do Pedro, na atuação do Marcos Junior, toda ela é uma clareza que foge do racional e contribui para uma esperança amorosa de que tudo dê certo.

O meu olhar torce e mesmo não querendo distorce.

E ao olhar se emociona com vitórias magras e lutadas porque um dos destaques do time deu pane no HD e foi expulso com quinze minutos de jogo.

E se emociona vendo Abel ser Abel, nitidamente tricolor, nitidamente feliz com a luta por cem minutos para que uma vitória ocorresse, com um homem a menos, contra uma equipe mais talentosa.

Porque ver não é um enxergar neutro como se a câmera o fosse, ver é sentir os olhos saindo do peito.

E ver futebol liga Abel e Wenger pela gratidão de gerações para com eles em seus trabalhos nos clubes, e pela miopia de outras, que não sentiram o que eles são, e foram, e serão.

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