O Inter caiu,mas a marra colorada ainda não se deu conta.

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O Internacional caiu ontem para a segunda divisão, fruto de dois anos, ao menos, onde ocorreu de tudo,menos planejamento.

Pra mim a queda começou com a demissão de Aguirre em busca de “fato novo” às vésperas de um GRENAL onde o Inter foi impieadosamente goleado.

O autor do Blog “Meia encarnada”, Douglas Cecconello, é um dos que coloca que o Inter começou a cair quando trocou o “clube do povo” pelo “Campeão de tudo!”. Pode ser.

Pra mim, tricolor, torcedor fanático do Fluminense, é difícil entender exatamente o que ocorreu com o Internacional, considerando que o Inter foi exatamente um dos modelos para que a gestão Peter Siemsem iniciasse uma revolução no Fluminense que nos deu o avanço de Xerém, o CT Pedro Antônio, o sócio-futebol que permite hoje que o presidente do clube seja eleito por eleição direta (embora a grande maioria ainda não vote porque ainda não ampliaram os locais de votação),etc..

A dor da queda nós torcedores do Fluminense conhecemos, caímos duas vezes para a série B e uma para a série C.

O torcedor tricolor ainda tem lançado sobre ele o estigma de torcedor de um clube “anti-ético” por natureza exatamente porque na queda em 1996 e depois na volta à série A em 2000 o Fluminense não passou pelos trâmites “normais”.

Piorou quando em 2013 o Fluminense foi salvo do rebaixamento por Flamengo e Portuguesa que escalaram jogadores irregulares na última rodada.

O colorado teve o gostinho do que sofreu o tricolor em 2013 quando o clube entrou no STJD para que o tribunal verificasse o caso Vitor Ramos, jogador do Vitória, supostamente escalado de forma irregular.

Detalhe: Ao contrário do Fluminense em 2013 o Internacional efetivamente foi ao tribunal, criou a demanda jurídica, não participou apenas como parte interessada de um processo aberto pelo então procurador, como via de regra a procuradoria de Justiça Desportiva fazia desde 2003.

Não, o Inter deu entrada no STJD a partir de uma denúncia dele, supostamente com uma irregularidade comprovada por ele, não houve, como nos casos todos ocorridos de 2003 a 2013, uma denúncia da procuradoria que levou ao STJD em todos os casos a punir os clubes da mesma forma (perda de 3 pontos mais os pontos conquistados nas partidas em que o jogador irregular atuou), que puniu Ponte Preta, Paysandu, São Caetano, Grêmio Prudente, Flamengo e Portuguesa de 2003 a 2013, ou seja, de acordo com a jurisprudência do tribunal.

Mesmo com a opinião pública tratando a ação do Inter como desvio de conduta, quando é um legítimo direito do clube, a torcida colorada, no entanto, não se deu conta do mundo em que vive.

Talvez seja a dor, eu entendo,mas lamentavelmente em meio à dor da quedas ontem o torcedor tricolor leu, estupefacto, a seguinte frase : “O Inter tem de escolher se sobe como Juventus ou como Fluminense!”.

A ironia é que a Veccia Signora, a Juventus, caiu por ter jogadores participando de manipulação de resultados, o Fluminense caiu, assim como o Internacional, por ter ido mal em campo, por má gestão esportiva.

A outra ironia é que o Fluminense não subiu pelo campo por, pasmem, o Inter e o Botafogo em 1999 terem sido salvos do rebaixamento pelo famoso caso Sandro Hiroshi, lembram?

Isso mesmo, Inter e Botafogo denunciaram o São Paulo pela escalação de um jogador que,pasmem, era o que chamamos de “gato”, tinha a idade adulterada.

O jogador havia adulterado a idade ANOS ANTES,mas quem liga, não é mesmo? O STJD, em uma jurisprudência inovadora na época, e que acabou sendo seguida posteriormente, remanejou os pontos conquistados pelo SPFC a inter e Botafogo.

Sacaram?

Sim, Inter e Botafogo perderam os jogos, denunciaram uma ilegalidade DO JOGADOR ANOS ATRÁS e levaram o SPFC a ser punido, os salvando do rebaixamento e levando o Gama a ser rebaixado.

O Gama, que não é besta, foi ao STJD e depois à justiça comum, ganhou a causa e levou à criação da Copa João Havelange, que acabou com a divisão em divisões, gerando um campeonato onde todas as divisões podiam ir até a final, e pôs Bahia e Fluminense no grupo dos clubes da série A.

A João Havelange gerou um Frankenstein onde o São Caetano, que estava na B em 1999, chegando à final em 2000 e se mantendo dali em diante na série A, chegando até a final da Libertadores.

Sim, o Fluminense foi alçado à série A porque o Inter, sim ele mesmo, junto com o Botafogo fizeram uma manobra jabuticaba, praticamente anti-ética, para se manter na série A na marra.

A manobra, feita junto ao STJD, no tapetão, foi tão manobra que a justiça comum obrigou à CBF a “desrebaixar” o Gama e fazer essa zona explicada acima.

“AH,mas o Fluminense virou a mesa em 1996!”.

É? Sabe nada sobre o caso Ivens Mendes, do 1-0-0 onde Mauro César Petraglia, presidindo o Clube Atlético Paranaense, e o Alberto Dualib, presidindo o Corinthians, negociaram com o chefe da comissão de Arbitragem meios de serem beneficiados em seus jogos pelos juízes?

Não conhece o famoso caso 1-0-0? Humm, lê aqui.

Pois é, o Flu não foi rebaixado em 1996 porque quem deveria ser rebaixado pro fraude, como a Juventus foi, era o Corinthians e o CAP, então ninguém foi rebaixado, entendeu? Não é difícil, né?

Então quando o Colorado, e qualquer outro clube ou torcedor, usa o Fluminense como exemplo de manobra e desonestidade se comparando à Juventus, fica aquela impressão de marra, de pouco entendimento, zero de auto-crítica, pouca noção,sabe?

E explica muito porque o Inter caiu, porque seus dirigentes e torcida esqueceram sua história, seu passado e o respeito que devem ter aos demais clubes, reconhecendo seus erros em vez de transferí-los a terceiros.

Mas sabemos que isso é esperar demais de clubes e torcedores que não precisam se preocupar com a imagem do clube porque existe a Geni Fluminense pra ser usada como espantalho, não é mesmo?

Desejo sorte ao Internacional, que precisa mudar a própria ideia de si mesmo, com um orgulho que sua história merece que exista, mas que não deixa que fiquem cegos seus dirigentes e torcedores.

Ah, o Inter não precisa escolher como subir, ele deve subir como Internacional, afinal não tem virada de mesa desde 2000, aquela que o Inter causou.

E a entrada do Inter no STJD parece que deveria fazer com que seus torcedores e dirigentes entendessem isso, parando de dizer que em 2013 o que ocorreu foi virada de mesa.

Mas ai eu estou sendo utópico.

Abel e o retorno de um tipo de amor.

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A Torcida do Atlético Nacional de Medellin compôs o seguinte cântico ontem:

Que lo escuchen

En todo el continente

Siempre recordaremos

Campeon al Chapecoense #ForçaChape”

Ao ouvi-lo não pude deixar de me emocionar. Porque tem uma enormidade esse canto, essa torcida e esse clube que transforma tudo em pequenez, todos em menores, e isso é bom, porque essa percepção de consciente pequenez nos permite o aprendizado da melhora.

Aliás, salvo pontuais exemplos de estupidez cotidiana tudo o que envolveu a tragédia com a Chapecoense nos ensinou mundialmente caminhos de melhoria e transformação humanas poucas vezes vistos na história da humanidade.

O que vai permanecer vivo depois do período de luto não sabemos, podemos apenas rezar para que as diversas lições em inglês, francês, português, alemão, árabe, chinês, japonês, espanhol, etc permeie uma renovação no humanismo que fez o mundo um tanto melhor nos últimos séculos.

Sabemos que o mundo tem a velha mania de nos surpreender negativamente, e está aí Trump para não nos desmentir, mas vá lá, quem sabe, episódios traumáticos como esses nos renovem enquanto pessoas.

Não é todo dia no velho e violento esporte bretão que uma equipe solicita à confederação para perder um título e que esse seja atribuído ao adversário abatido por uma tragédia, vamos combinar.

Não é todo dia que brasileiros, das nacionalidades mais egoístas do planisfério, apoiam coletivamente o renascimento de uma equipe que o senso comum colocaria como “Pequena” em nome de nossa estrutural hierarquização e não só, de forma sensível e solidária se colocam exigindo que seus clubes auxiliem concretamente a Chapecoense, inclusive negativando no SPC moral os presidentes e dirigentes que não respeitaram a dor coletiva.

Aprendemos que existe saída nos últimos dois dias e não faço nenhum malabarismo pra incluir a contratação de Abel pelo Fluminense como parte disso.

Por quê? Abel tem trocentos defeitos, mas falta de amor pela vida, pelo Fluminense e pelo futebol não falta naquele corpanzil.

E não só, Abel é ético como poucos, é humano, é vivo, é bom. Nem precisa ser brilhante pra sacar disso.

Abel é dos poucos caras que se expõe com uma coragem do tamanho de seu corpo para exprimir amor, raiva, dor, mágoa.

Abel é gente, Abel é parte da onda boa que é a solidariedade a Chapecó desde anos antes da tragédia, desde que nasceu.

Não é uma sumidade técnica, não é o novo Guardiola, é apenas o Abelão, aquele cara que ama tanto o Fluminense que lacrimeja quando fala que o Fluminense o salvou de ser bandido, da mesma forma que lacrimeja quando fala do Inter tê-lo ensinado a ser grande técnico ou coisa parecida.

Abel volta pra pacificar o Fluminense sem nenhuma revolução tática ou de gerenciamento, nem aversão a elas.

Abel vem fazer seu trabalho, um time competitivo que jogue por amor ao futebol. Às vezes jogará feio, às vezes bonito, às vezes aberto, às vezes fatal como uma cobra, mas sempre lutando e querendo viver e vencer.

Abel chora, deve ter chorado muito ontem, deve ter abraçado seu filho, deve ter abraçado a camisa do Fluminense e a do Inter, deve ter lembrado de histórias, dos abraços em Caio Junior, dos jogadores que treinou, do medo de avião.

Se bobear a tragédia com a Chapecoense o ajudou a fechar com o Fluminense.

Abel tem coração, assim como demonstramos ter alma e coração ontem, hoje e espero que pra sempre.

A tragédia com a Chapecoense nos lembrou coletivamente, e mundialmente, de nossa finitude e do quanto amamos este esporte que fundamenta nossas identidades em cores e escudos.

A tragédia nos lembrou de um tipo de amor que poucas vezes se vê e viu nos últimos anos, mas que estruturou ideologias, cantos, artes, danças, vitórias.

A tragédia nos fez parecidos com Abel, coração grande que bate forte pelo que ama, que ri alto, que luta, que abraça, que chora.

Abel é a cara deste amor, que ele faça no Flu a volta de uma unidade que nos ajude a sermos mais solidários uns com os outros.

Eu preferia Roger, pela possibilidade de revolução tática, mas Abel nos traz a possibilidade de uma revolução anímica, de alma, de amor, de coração.

Não a banalizada raça ou luta, mas amor mesmo, amor, aquele amor que temos por nossas mulheres e homens, filhos, cães, ideias, aquela vontade de cuidar e abraçar.

A gente precisa de Abel pra aprender de novo um respeito e amor que deixamos cair em algum lugar assim como precisamos de uma tragédia para começar a nos respeitar mais enquanto rivais e respeitar mais os profissionais que dão o sangue pelas cores que amamos.

Todos podem morrer amanhã, essa ideia baliza uma necessidade de nos amarmos mais.

Abel pro Fluminense simboliza o retorno deste amor assim como o Atlético Nacional nos ensinou a possibilidade de sermos maiores do que a mesquinharia cotidiana.

Podemos ser melhores, mais humanistas, mais solidários, mais fortes, menos mesquinhos e sectários.

A hora de crescer chegou.