O Fluminense precisa mais de tempo que de reforços

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Na quarta-feira o Fluminense foi derrotado pelo Santos por quatro a dois.

Pela ótica de boa parte da torcida e da grande imprensa o Fluminense foi goleado de forma humilhante, absolutamente dominado, destruído, encaixotado, demitam todos, correto? Não, não está correto.

Embora o bom senso seja um elemento raro na mente da torcida tricolor, uma das menos afeitas ao raciocínio no outrora país do futebol, ele é fundamental para analisarmos o jogo e tentarmos descobrir algo parecido com o óbvio.

Bem, vamos lá tentar?

Há um semi consenso nas redes sociais que o time do Fluminense é “de segunda”. Boa parte dessa afirmação foi colocada nos muros das Laranjeiras na madrugada de quarta para quinta inclusive, o que deixa claro que o senso comum tricolor tá com a corda toda.

Outro semi consenso nas redes sociais é que o time além de de segunda é um time que necessita urgentemente de reforços, algo que assanha o jornalismo whatsap e os grandes portais sedentos por alimentar a sanha de especulação própria do jornalismo esportivo, que deveria se chamar fofoquismo esportivo.

Também há a fixação patológica na figura do Gum e na desqualificação de todos os jogadores que não tenham custado centro e trinta e oito zilhões de euros,mas essa eu vou resolver ignorar porque analisar sandice é questão pra psico proctologista ou algo relacionado.

Até porque quando o reforço que custa zilhões chega ele vira um merda no dia seguinte pra torcida do Flu, ela jamais consegue sequer tangenciar algo parecido com a análise de jogadores, tática,etc, em resumo é uma das torcidas menos inteligentes do planeta, embora ache que essa atitude não é burrice,mas “crítica”.

Mas vamos lá.

Alguém se lembra quando Levir Culpi assinou contrato?

Pois é, ele assinou em sete de março de 2016, estamos em vinte e três de junho de 2016, o que dá exatamente três meses e dezesseis dias de trabalho.

Em três meses e dezesseis dias de trabalho um treinador tem de conhecer o elenco, e o elenco a ele, entender a cara desse elenco, inclusive a emocional, lidar com vaidades, inseguranças, medos, confiança, relação com o clube, saídas e chegadas de cerca de trinta homens adultos e ainda dar organização tática ao time, vencer jogos e campeonatos.

Em três meses e dezesseis dias um elenco tem de lidar com o treinador, sua linguagem, seus métodos, as brigas internas, as vaidades, a compreensão das necessidades internas e unidade,coesão, de melhor compreensão das características um do outro e sua relação com o que o treinador organiza enquanto metodologia de trabalho. E também vencer jogos, campeonatos,etc.

Levir e o elenco tiveram um descanso por algumas boas, e até excelentes, atuações coletivas e individuais, e pelo título da Primeira Liga. Mas essa trégua vem acabando.

Mas por que a trégua entre torcida e time vem acabando? Por um conjunto de fatores onde a burrice coletiva das torcidas brasileiras e sua forma absolutamente tosca de ver futebol contribui muito, mas também não é a única razão, talvez sequer seja a principal.

A primeira razão tem relação com a tosquice coletiva sim. Ontem o time correu,mas perdeu. Douglas foi bem, Cícero idem, mas o Flu é ansioso no ataque, o Santos não. Perdemos, alguém lembra da atuação? Não.

Ninguém se lembra da atuação sequer pra analisar desempenho real de jogadores, da tática do técnico, nada. A derrota gera um fenômeno de ensurdecedora tolice coletiva que faz sempre o mesmo trajeto: procura culpados, culpa o Gum, xinga a diretoria, diz que o time é horroroso, passa a torcer vaiando nos jogos, quem vai aos jogos,etc,etc,etc…

Domingo foi a mesma coisa, era mais interessante pra torcida tentar descobrir se foi Gum ou Giovanni que não fizeram falta no Diego Souza que analisar o gol sob o ponto de vista óbvio de que um time que se lança ao ataque pra vencer jogos se expõe e Diego Souza não é nada fácil de derrubar.

O mesmo aconteceu ontem. Tivemos milhões de chances, criamos muito,mas ficamos expostos e sofremos gols que nos derrotaram. O Santos não desperdiça as chances que desperdiçamos.

Ontem teve mais, teve o requinte de crueldade da atuação soberba do Vanderlei, que incorporou o Rodolfo Rodriguez e nos tirou ao menos dois gols com um endereço tão certo que tava com o tipo sanguíneo do destinatário, além do mapa astral, colado junto com o selo.

O Fluminense foi derrotado com uma excelente atuação, como ocorreu no empate com o Galo, da mesma forma que venceu o Corinthians uma atuação muito ruim.

Os gols do Santos foram culpa da defesa? Ou como alguns elementos mais milenaristas da torcida resolveram inventar foi culpa da ausência do Dom Sebastião do momento, o Edson?

Não, a derrota para o Santos foram culpa dos atacantes do Santos que resolveram, pasmem, fazer gols.

Sim, lamento informar à torcida do Fluminense que quando jogamos campeonatos existe, eu lamento com vocês, adversários. E mesmo o pior adversário possui habilidades, técnico, consegue fazer gols em times que estão jogando contra ele, às vezes jogando até melhor.

O Santos além de fazer o que todo adversário tem todo direito de fazer em campo ainda é um time muito azeitado desde 2015, tem um bom técnico há quase um ano, tem Gabigol e contratou um bom centroavante junto ao Campinense.

Os dois primeiros gols do Santos foram falhas da defesa do Fluminense? Não, amigos. A defesa do Fluminense não é inexpugnável, nenhuma defesa é, e o ataque do Santos é bom para caramba. Entenderam? Gabigol não é Zezinho Totoca, sabe?

Ah,mas tomamos gol de um cara que veio do Campinense! Vocês irão comentar,né? Sim, o que não diminui o gol, o giro rápido, o deslocamento e a conclusão do cara. Fora que só demonstra o quanto nossa torcida é tosca. O cara vir do Campinense não reduz o talento dele. Mesmo sabendo que se ele chega ao Fluminense seria tratado como Câncer de Próstata.

Rodrigão e Gabigol fizeram dois gols se deslocando, recebendo passes açucarados e vencendo nossa defesa que vinha muito bem no jogo até aquele momento. Exploraram espaços que o Fluminense dá ao subir a defesa quando está atacando, movimento que é fundamental taticamente porque a defesa ficar muito atrás com o time inteiro à frente é pedir mais flancos ainda.

O terceiro gol nasce desse risco. O único gol absolutamente abestalhado que sofremos foi o quarto e último, com o time tática e emocionalmente em frangalhos.

Ah,mas perdemos as bolas que geraram os passes pros gols? Normal pra um time que joga domingo e quarta há meses e tem um técnico apernas há três meses e dezesseis dias. E um time que mesmo assim arrisca muito, arrisca sempre, arrisca trocas de passes em velocidade com triangulações e deslocamentos.

Aliás, ontem foi um duelo entre um time com vocação absolutamente ofensiva, veloz e que arrisca e um time com vocação ofensiva criado na transição rápida e desarme certeiro, e com muitos meses a mais de aprimoramento. O Fluminense não tem um Gabigol,mas pode vir a ter se dermos tempo pro Levir e pro elenco se ajustarem. A ausência de um Gabigol é o que faz toda nossa produção ofensiva não gerar gols.

Então temos de ir atrás de um Gabigol? Não necessariamente.

E ai chegamos à segunda razão da perda de paciência da torcida com o time: A ausência de reforços.

Dane-se que chegaram Maranhão e Dudu. Dane-se que o Maranhão jogou bola ontem. Dane-se até que mesmo que tivéssemos o Guerra e o Hummels em campo ontem poderíamos perder pro Santos pelo mesmo placar. A torcida quer medalhão de reforços.

A torcida vê chegar Sóbis no Cruzeiro, Fred sair, Cueva no SPFC (A maioria sequer sabe quem é), etc e pira. Ela quer nomes.

Dane-se se esse medalhão se vier vai ter de se adaptar ao tempo, ao time, ao clube, à torcida mais burra e chata do mundo,etc, ela quer medalhão.

E se vier esse medalhão ela ficará satisfeita? Duvido.

Leiam os blogs e as timelines tricolores e verão que não haverá tempo pra torcida se satisfazer chegando ou não medalhão. Ou o time do Flu vence logo uma sequência ou Levir cai em Julho. A torcida pressiona, a eleição chega, o presidente pira e vai lá menos um bom trabalho possível.

A qualidade do elenco vai ser analisada? Nope.

Levir diz corretamente que o time do Flu sente demais gols contra, e sente, com essa torcida imbecil o elenco sente pressão tripla. Scarpa, Marcos Junior, Richarlisson, Douglas são extremamente talentosos,mas são jovens. Cícero, Henrique, Gum, Jonathan, Cavalieri, Wellington Silva e Magnata são veteranos,mas o eixo de talento tá em jovens, extremamente jovens, que por menos maturidade tendem a errar mais sob pressão.

Desses caras só o Marcos Junior tende a sentir menos, tende a se jogar mais a ter uma postura mais combativa. Douglas é raçudo,mas em situação de pressão tende a arriscar menos no talento e ficar mais atento à obrigações defensivas.

Um medalhão resolveria esses problemas? Não. Talvez melhorasse o passe final, talvez melhorasse nas finalizações,mas resolveria a ansiedade que a própria relação da torcida com o time geram? Duvido.

E a defesa? Precisamos trocar? Só se a gente ignorar a análise pontual das atuações. Henrique e Gum falham sim, mais do que o necessário,mas por razões diferentes são excelentes zagueiros. É contraditório? Não.

A zaga é duas coisas num time: último bastião da defesa e primeiro bastião do ataque. É da zaga que parte o primeiro passe de construção de jogada. E nesse aspecto Henrique, em especial, e Gum estão indo muito bem.

No que tange às responsabilidades defensivas Gum e Henrique tem falhado no um contra um quando o adversário está em velocidade. No combate direto com linhas próximas não vem falhando não, a maior parte dos gols que sofremos vem dos adversários no um contra um em velocidade, em contra ataque com a zaga, que é lenta, exposta.

E ai, não é falha dos zagueiros? Não. Nossos zagueiros falham mesmo em determinadas circunstâncias da bola aérea, quando ela surge em virada de bola brusca ou que exige velocidade, como no quarto gol ontem. No caso da virada de bola a falha nem sempre é da zaga, muitas vezes é dos laterais.

Quando os zagueiros são expostos ao contra ataque a falha é da recomposição defensiva do time, não da zaga. Sugerir que zagueiros façam falta em situações assim é inclusive pedir que arrisquem ser expulsos.

Ou seja, o problema do Fluminense ainda é de organização tática e entrosamento? Bingo, amigo!

E ai chegamos na terceira razão para a qual a paciência da torcida vai pro fim: A saída do Fred e as eleições no clube.

As eleições no clube picham muros, fazem sites, blogs,etc perderem a razão,etc. A saída de Fred criou um ambiente ácido entre a torcida e a direção, danem-se todos os fatores que envolveram o caso.

Juntem os dois e temos Napalm como recheio de carne de porco indo ao forno.

Tudo o que boa parte de blogs e blogueiros tricolores de grandes portais e sites tricolores querem é um desempenho pífio de Peter no futebol. A maior parte dos blogueiros de portais e dos sites tricolores tem uma relação com a política tricolor que é direta, embora finjam que não é. Alguns inclusive já usaram o mantra que pagar as dívidas não ganha títulos, que um determinado ex-presidente de ex-patrocinadora e atual candidato a presidente do Fluminense também usou.

Juntem a isso o fato de por diversas razões, entre elas uma profunda impaciência na gestão do futebol, Peter foi a gestão que perdeu Fred, Unimed e não ganha títulos desde 2012, com a exceção do título da Primeira Liga, que é negligenciado pela torcida e inclusive pela diretoria (E não devia ser).

Temos então em mãos uma bomba assada.

A saída de Fred doeu na torcida, e ela coloca que com Fred venceríamos os jogos (Sabemos que é pensamento mágico, pois perdemos e empatamos jogos com Fred perdendo gols igualzinho o Magno Alves), aumentem a dor com Fred fazendo gols a rodo pelo Galo (Um time que joga pra ele com o velho Muricibol requentado pelo Marcelo Oliveira) e temos ai o festejo da raiva embrutecida construindo tolices.

Fred saiu por muitas razões, acho apenas que ignoram as razões dele para isso. Tornam a saída de Fred uma pressão do Peter e só. E inclusive colocam que mesmo que essa pressão tenha existido ela é intrinsecamente tola e incorreta, como se dizer pra um jogador ou deixar claro ou em conversas ele entender que os salários dele pesam pro clube seja algo automaticamente ruim.

Fred também saiu pra ganhar mais, pra morar em BH, porque estava sim perdendo espaço técnico em um time que não estava tendo dele o retorno esperado técnico e via em Scarpa e em um ataque mais veloz a saída técnica necessária para o que o Fluminense tende a ser no pós Unimed e pegou o boné. Com uma proposta em mãos desde abril e sabendo que Peter se ressentia do custo salarial do jogador, mesmo que não quisesse perdê-lo, a saída não seria difícil de concretizar e ela ocorreu.

Criar nesse episódio um drama mexicano para além das dores típicas das separações, construindo heróis e vilões, é a antítese do bom senso.

Mas é nesse caldeirão que a sopa do Fluminense para esse ano está sendo cozida e é nesse caldeirão que Levir Culpi precisa treinar um time com potencial,mas cuja diretoria, clube e torcida pouco sabe dar tempo para que potenciais se consagrem.

O time ensaia uma maior intensidade, velocidade, troca de passes e saídas técnicas interessantes,mas oscila entre a beleza do ataque com pouca eficiência e a solidez defensiva com pouca criatividade ofensiva.

Isso é natural quando temos três meses e dezesseis dias de treinador e elenco se relacionando enquanto jogam um campeonato brasileiro duríssimo que ainda está na décima primeira rodada.

Com mais tempo a tendência é esse time ser um time extremamente difícil de ser superado.

Não adianta a batalha de Itararé entre escalar Edson ou Pierre ou se precisamos contratar mais duzentos centroavantes e gastar zilhões no mítico camisa 10.

Precisamos é melhorar a recomposição defensiva e a qualidade das conclusões e confiar em técnico e elenco. O resto vem naturalmente.

Conseguiremos? Conhecendo a história recente do Fluminense? Eu duvido.

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