O Fluminense precisa mais de tempo que de reforços

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Na quarta-feira o Fluminense foi derrotado pelo Santos por quatro a dois.

Pela ótica de boa parte da torcida e da grande imprensa o Fluminense foi goleado de forma humilhante, absolutamente dominado, destruído, encaixotado, demitam todos, correto? Não, não está correto.

Embora o bom senso seja um elemento raro na mente da torcida tricolor, uma das menos afeitas ao raciocínio no outrora país do futebol, ele é fundamental para analisarmos o jogo e tentarmos descobrir algo parecido com o óbvio.

Bem, vamos lá tentar?

Há um semi consenso nas redes sociais que o time do Fluminense é “de segunda”. Boa parte dessa afirmação foi colocada nos muros das Laranjeiras na madrugada de quarta para quinta inclusive, o que deixa claro que o senso comum tricolor tá com a corda toda.

Outro semi consenso nas redes sociais é que o time além de de segunda é um time que necessita urgentemente de reforços, algo que assanha o jornalismo whatsap e os grandes portais sedentos por alimentar a sanha de especulação própria do jornalismo esportivo, que deveria se chamar fofoquismo esportivo.

Também há a fixação patológica na figura do Gum e na desqualificação de todos os jogadores que não tenham custado centro e trinta e oito zilhões de euros,mas essa eu vou resolver ignorar porque analisar sandice é questão pra psico proctologista ou algo relacionado.

Até porque quando o reforço que custa zilhões chega ele vira um merda no dia seguinte pra torcida do Flu, ela jamais consegue sequer tangenciar algo parecido com a análise de jogadores, tática,etc, em resumo é uma das torcidas menos inteligentes do planeta, embora ache que essa atitude não é burrice,mas “crítica”.

Mas vamos lá.

Alguém se lembra quando Levir Culpi assinou contrato?

Pois é, ele assinou em sete de março de 2016, estamos em vinte e três de junho de 2016, o que dá exatamente três meses e dezesseis dias de trabalho.

Em três meses e dezesseis dias de trabalho um treinador tem de conhecer o elenco, e o elenco a ele, entender a cara desse elenco, inclusive a emocional, lidar com vaidades, inseguranças, medos, confiança, relação com o clube, saídas e chegadas de cerca de trinta homens adultos e ainda dar organização tática ao time, vencer jogos e campeonatos.

Em três meses e dezesseis dias um elenco tem de lidar com o treinador, sua linguagem, seus métodos, as brigas internas, as vaidades, a compreensão das necessidades internas e unidade,coesão, de melhor compreensão das características um do outro e sua relação com o que o treinador organiza enquanto metodologia de trabalho. E também vencer jogos, campeonatos,etc.

Levir e o elenco tiveram um descanso por algumas boas, e até excelentes, atuações coletivas e individuais, e pelo título da Primeira Liga. Mas essa trégua vem acabando.

Mas por que a trégua entre torcida e time vem acabando? Por um conjunto de fatores onde a burrice coletiva das torcidas brasileiras e sua forma absolutamente tosca de ver futebol contribui muito, mas também não é a única razão, talvez sequer seja a principal.

A primeira razão tem relação com a tosquice coletiva sim. Ontem o time correu,mas perdeu. Douglas foi bem, Cícero idem, mas o Flu é ansioso no ataque, o Santos não. Perdemos, alguém lembra da atuação? Não.

Ninguém se lembra da atuação sequer pra analisar desempenho real de jogadores, da tática do técnico, nada. A derrota gera um fenômeno de ensurdecedora tolice coletiva que faz sempre o mesmo trajeto: procura culpados, culpa o Gum, xinga a diretoria, diz que o time é horroroso, passa a torcer vaiando nos jogos, quem vai aos jogos,etc,etc,etc…

Domingo foi a mesma coisa, era mais interessante pra torcida tentar descobrir se foi Gum ou Giovanni que não fizeram falta no Diego Souza que analisar o gol sob o ponto de vista óbvio de que um time que se lança ao ataque pra vencer jogos se expõe e Diego Souza não é nada fácil de derrubar.

O mesmo aconteceu ontem. Tivemos milhões de chances, criamos muito,mas ficamos expostos e sofremos gols que nos derrotaram. O Santos não desperdiça as chances que desperdiçamos.

Ontem teve mais, teve o requinte de crueldade da atuação soberba do Vanderlei, que incorporou o Rodolfo Rodriguez e nos tirou ao menos dois gols com um endereço tão certo que tava com o tipo sanguíneo do destinatário, além do mapa astral, colado junto com o selo.

O Fluminense foi derrotado com uma excelente atuação, como ocorreu no empate com o Galo, da mesma forma que venceu o Corinthians uma atuação muito ruim.

Os gols do Santos foram culpa da defesa? Ou como alguns elementos mais milenaristas da torcida resolveram inventar foi culpa da ausência do Dom Sebastião do momento, o Edson?

Não, a derrota para o Santos foram culpa dos atacantes do Santos que resolveram, pasmem, fazer gols.

Sim, lamento informar à torcida do Fluminense que quando jogamos campeonatos existe, eu lamento com vocês, adversários. E mesmo o pior adversário possui habilidades, técnico, consegue fazer gols em times que estão jogando contra ele, às vezes jogando até melhor.

O Santos além de fazer o que todo adversário tem todo direito de fazer em campo ainda é um time muito azeitado desde 2015, tem um bom técnico há quase um ano, tem Gabigol e contratou um bom centroavante junto ao Campinense.

Os dois primeiros gols do Santos foram falhas da defesa do Fluminense? Não, amigos. A defesa do Fluminense não é inexpugnável, nenhuma defesa é, e o ataque do Santos é bom para caramba. Entenderam? Gabigol não é Zezinho Totoca, sabe?

Ah,mas tomamos gol de um cara que veio do Campinense! Vocês irão comentar,né? Sim, o que não diminui o gol, o giro rápido, o deslocamento e a conclusão do cara. Fora que só demonstra o quanto nossa torcida é tosca. O cara vir do Campinense não reduz o talento dele. Mesmo sabendo que se ele chega ao Fluminense seria tratado como Câncer de Próstata.

Rodrigão e Gabigol fizeram dois gols se deslocando, recebendo passes açucarados e vencendo nossa defesa que vinha muito bem no jogo até aquele momento. Exploraram espaços que o Fluminense dá ao subir a defesa quando está atacando, movimento que é fundamental taticamente porque a defesa ficar muito atrás com o time inteiro à frente é pedir mais flancos ainda.

O terceiro gol nasce desse risco. O único gol absolutamente abestalhado que sofremos foi o quarto e último, com o time tática e emocionalmente em frangalhos.

Ah,mas perdemos as bolas que geraram os passes pros gols? Normal pra um time que joga domingo e quarta há meses e tem um técnico apernas há três meses e dezesseis dias. E um time que mesmo assim arrisca muito, arrisca sempre, arrisca trocas de passes em velocidade com triangulações e deslocamentos.

Aliás, ontem foi um duelo entre um time com vocação absolutamente ofensiva, veloz e que arrisca e um time com vocação ofensiva criado na transição rápida e desarme certeiro, e com muitos meses a mais de aprimoramento. O Fluminense não tem um Gabigol,mas pode vir a ter se dermos tempo pro Levir e pro elenco se ajustarem. A ausência de um Gabigol é o que faz toda nossa produção ofensiva não gerar gols.

Então temos de ir atrás de um Gabigol? Não necessariamente.

E ai chegamos à segunda razão da perda de paciência da torcida com o time: A ausência de reforços.

Dane-se que chegaram Maranhão e Dudu. Dane-se que o Maranhão jogou bola ontem. Dane-se até que mesmo que tivéssemos o Guerra e o Hummels em campo ontem poderíamos perder pro Santos pelo mesmo placar. A torcida quer medalhão de reforços.

A torcida vê chegar Sóbis no Cruzeiro, Fred sair, Cueva no SPFC (A maioria sequer sabe quem é), etc e pira. Ela quer nomes.

Dane-se se esse medalhão se vier vai ter de se adaptar ao tempo, ao time, ao clube, à torcida mais burra e chata do mundo,etc, ela quer medalhão.

E se vier esse medalhão ela ficará satisfeita? Duvido.

Leiam os blogs e as timelines tricolores e verão que não haverá tempo pra torcida se satisfazer chegando ou não medalhão. Ou o time do Flu vence logo uma sequência ou Levir cai em Julho. A torcida pressiona, a eleição chega, o presidente pira e vai lá menos um bom trabalho possível.

A qualidade do elenco vai ser analisada? Nope.

Levir diz corretamente que o time do Flu sente demais gols contra, e sente, com essa torcida imbecil o elenco sente pressão tripla. Scarpa, Marcos Junior, Richarlisson, Douglas são extremamente talentosos,mas são jovens. Cícero, Henrique, Gum, Jonathan, Cavalieri, Wellington Silva e Magnata são veteranos,mas o eixo de talento tá em jovens, extremamente jovens, que por menos maturidade tendem a errar mais sob pressão.

Desses caras só o Marcos Junior tende a sentir menos, tende a se jogar mais a ter uma postura mais combativa. Douglas é raçudo,mas em situação de pressão tende a arriscar menos no talento e ficar mais atento à obrigações defensivas.

Um medalhão resolveria esses problemas? Não. Talvez melhorasse o passe final, talvez melhorasse nas finalizações,mas resolveria a ansiedade que a própria relação da torcida com o time geram? Duvido.

E a defesa? Precisamos trocar? Só se a gente ignorar a análise pontual das atuações. Henrique e Gum falham sim, mais do que o necessário,mas por razões diferentes são excelentes zagueiros. É contraditório? Não.

A zaga é duas coisas num time: último bastião da defesa e primeiro bastião do ataque. É da zaga que parte o primeiro passe de construção de jogada. E nesse aspecto Henrique, em especial, e Gum estão indo muito bem.

No que tange às responsabilidades defensivas Gum e Henrique tem falhado no um contra um quando o adversário está em velocidade. No combate direto com linhas próximas não vem falhando não, a maior parte dos gols que sofremos vem dos adversários no um contra um em velocidade, em contra ataque com a zaga, que é lenta, exposta.

E ai, não é falha dos zagueiros? Não. Nossos zagueiros falham mesmo em determinadas circunstâncias da bola aérea, quando ela surge em virada de bola brusca ou que exige velocidade, como no quarto gol ontem. No caso da virada de bola a falha nem sempre é da zaga, muitas vezes é dos laterais.

Quando os zagueiros são expostos ao contra ataque a falha é da recomposição defensiva do time, não da zaga. Sugerir que zagueiros façam falta em situações assim é inclusive pedir que arrisquem ser expulsos.

Ou seja, o problema do Fluminense ainda é de organização tática e entrosamento? Bingo, amigo!

E ai chegamos na terceira razão para a qual a paciência da torcida vai pro fim: A saída do Fred e as eleições no clube.

As eleições no clube picham muros, fazem sites, blogs,etc perderem a razão,etc. A saída de Fred criou um ambiente ácido entre a torcida e a direção, danem-se todos os fatores que envolveram o caso.

Juntem os dois e temos Napalm como recheio de carne de porco indo ao forno.

Tudo o que boa parte de blogs e blogueiros tricolores de grandes portais e sites tricolores querem é um desempenho pífio de Peter no futebol. A maior parte dos blogueiros de portais e dos sites tricolores tem uma relação com a política tricolor que é direta, embora finjam que não é. Alguns inclusive já usaram o mantra que pagar as dívidas não ganha títulos, que um determinado ex-presidente de ex-patrocinadora e atual candidato a presidente do Fluminense também usou.

Juntem a isso o fato de por diversas razões, entre elas uma profunda impaciência na gestão do futebol, Peter foi a gestão que perdeu Fred, Unimed e não ganha títulos desde 2012, com a exceção do título da Primeira Liga, que é negligenciado pela torcida e inclusive pela diretoria (E não devia ser).

Temos então em mãos uma bomba assada.

A saída de Fred doeu na torcida, e ela coloca que com Fred venceríamos os jogos (Sabemos que é pensamento mágico, pois perdemos e empatamos jogos com Fred perdendo gols igualzinho o Magno Alves), aumentem a dor com Fred fazendo gols a rodo pelo Galo (Um time que joga pra ele com o velho Muricibol requentado pelo Marcelo Oliveira) e temos ai o festejo da raiva embrutecida construindo tolices.

Fred saiu por muitas razões, acho apenas que ignoram as razões dele para isso. Tornam a saída de Fred uma pressão do Peter e só. E inclusive colocam que mesmo que essa pressão tenha existido ela é intrinsecamente tola e incorreta, como se dizer pra um jogador ou deixar claro ou em conversas ele entender que os salários dele pesam pro clube seja algo automaticamente ruim.

Fred também saiu pra ganhar mais, pra morar em BH, porque estava sim perdendo espaço técnico em um time que não estava tendo dele o retorno esperado técnico e via em Scarpa e em um ataque mais veloz a saída técnica necessária para o que o Fluminense tende a ser no pós Unimed e pegou o boné. Com uma proposta em mãos desde abril e sabendo que Peter se ressentia do custo salarial do jogador, mesmo que não quisesse perdê-lo, a saída não seria difícil de concretizar e ela ocorreu.

Criar nesse episódio um drama mexicano para além das dores típicas das separações, construindo heróis e vilões, é a antítese do bom senso.

Mas é nesse caldeirão que a sopa do Fluminense para esse ano está sendo cozida e é nesse caldeirão que Levir Culpi precisa treinar um time com potencial,mas cuja diretoria, clube e torcida pouco sabe dar tempo para que potenciais se consagrem.

O time ensaia uma maior intensidade, velocidade, troca de passes e saídas técnicas interessantes,mas oscila entre a beleza do ataque com pouca eficiência e a solidez defensiva com pouca criatividade ofensiva.

Isso é natural quando temos três meses e dezesseis dias de treinador e elenco se relacionando enquanto jogam um campeonato brasileiro duríssimo que ainda está na décima primeira rodada.

Com mais tempo a tendência é esse time ser um time extremamente difícil de ser superado.

Não adianta a batalha de Itararé entre escalar Edson ou Pierre ou se precisamos contratar mais duzentos centroavantes e gastar zilhões no mítico camisa 10.

Precisamos é melhorar a recomposição defensiva e a qualidade das conclusões e confiar em técnico e elenco. O resto vem naturalmente.

Conseguiremos? Conhecendo a história recente do Fluminense? Eu duvido.

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A nova roupa do Fluminense

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A nova roupa do imperador tem duas formas de ser analisada: Como ela é e como querem que ela seja vista.

O rei está nu, é claro, mas nas ruas enquanto ele desfila ou elogiam a nova roupa inexistente ou a criticam citando detalhes dela tão inexistentes quanto.

É exatamente o caso do Fluminense.

O Fluminense está nu, não tem mais Fred que lhe dava uma cara pronta antes de qualquer campeonato.

Com Fred a sanha que analisa times a partir das individualidades e não do coletivo tinha a resposta pronta pra editoria e pra por na manchete: “Fred lidera elenco talentoso” ou “Fred é a esperança do Fluminense!” eram a saída fácil.

Não há mais saídas fáceis.

Elencar Scarpa, Richarlisson, Douglas, etc, como esperanças é desespero diante da ausência da muleta analítica.

E por quê? Porque um time é muito mais que suas individualidades e que a soma de suas individualidades.

O Fluminense é um bom time, com problemas em algumas individualidades, que sequer são tantas assim.

Taticamente o Fluminense cria chances, organiza-se bem defensiva e ofensivamente. Falta criatividade? Não, por vezes algumas peças pecam pela afobação e burocratização das ações, mas no geral há criatividade.

Há o passe arriscado, o passe agudo, o passe que quebra defesa, o drible e o chute. Há movimentação, há triangulação, busca de tabela. Nem sempre funciona, mas a criatividade tá ali.

Falta técnica? Nunca.

Quem observou o jogo de ontem contra o Grêmio em Volta Redonda pôde observar técnica no drible do Richarlisson; nos passes e busca de triangulações, por vezes muito verticais, pelo Douglas; nos lançamentos e chutes do Scarpa; nos desarmes de Henrique, Douglas e Gum; na busca de tocar a bola a partir da defesa e até nas cabeçadas de Henrique e Cícero que levaram perigo.

Taticamente sempre tínhamos alguém livre nas alterais pro passe final e tivemos ao menos umas três vezes o Edson chegando de elemento surpresa pra finalizar.

Temos um time, que ainda precisa melhorar, mas ele evolui a olhos vistos desde a chegada de Levir.

E temos um time sólido na defesa, com falhas sim, mas sólido, que não causa enfarto a cada ataque adversário. O caminho pra tomarmos gol permanece a inversão de jogada nas costas de um dos laterais, mas pra isso o time do Flu precisa ser absolutamente surpreendido, e não tem ocorrido a todo momento.

Tomamos três gols assim, e exceto contra o Grêmio, sempre em início de jogo ou do segundo tempo. E mesmo o gol do Grêmio podemos imputar a um erro do estreante Maranhão que não acompanhou o Marcelo Hermes.

Observando a defesa ela estava toda encaixadinha, exceto pelo Maranhão, que é atacante. E o gol ter saído de um lateral ocupando o espaço deixado porque todo o meio e ataque do grêmio estavam marcados não é detalhe.

Vamos lembrar que ao contrário do Fluminense esse time do Roger joga junto com Roger há um ano e foi terceiro colocado ano passado.

Sim, esse resultado nos fará falta porque tínhamos plena condição de vencer o Grêmio, mesmo se o Ramiro não tivesse sido expulso.

Expulsão essa absurdamente inacreditável, inclusive. E sim, o árbitro poderia ter dado pênalti do Henrique, embora não fosse algo que tivesse consenso absoluto de que fora pênalti, mas era possível marcar sim, portanto o Grêmio foi prejudicado duplamente.

Qual o problema deste time pra almejarmos mais? A meu ver nenhum.
Esse time tem plenas condições técnicas e táticas de disputar tanto o Brasileiro quanto a Copa do Brasil, com ênfase na segunda.

Precisamos de reforços? Sim, pra mim um meia armador e só. Cícero não pode ser meia armador, precisa ser o segundo volante jogando com Douglas.

Muitos reclamaram da substituição do Douglas, e não do Edson, pelo Magno Alves. Embora concorde que a melhor troca seria o Edson por um atacante acho que a não troca do Edson se deu porque Edson penetra melhor na área adversária, inclusive ele quase fez um gol. E entendo que foi essa a razão de ter saído Douglas e não Edson.

Douglas é o melhor volante que temos, mas não precisávamos de dois volantes e Douglas ainda não é no profissional o finalizador que era no sub-20.

Hoje o Edson tem maior presença ofensiva nas bolas paradas e como elemento surpresa. Por isso pra mim Levir achou melhor mantê-lo, porque ele poderia fazer um gol em um lance de bola parada ou chegando por trás da zaga num bate rebate.

Douglas é um cara pra organizar a posse de bola e a bola ofensiva desde a zaga, finaliza bem de fora de área, passa bem, mas ainda não penetra na área. Pra mim a razão da substituição dele e não do Edson foi pragmática: Edson poderia ser o cara que entra e mata o jogo.

Esse Fluminense nu nasce da perda, nasce da separação, mas entregou ontem um luto duro, um luto vivido e que não se acovardou na dor.

Vimos Scarpa, Richarlisson, Cícero, Douglas, Marcos Júnior (que já deu o aviso na bola que precisa ser titular) e até Maranhão avisarem que temos condições de produzir tecnicamente e taticamente de forma eficiente e que disputará campeonatos.

Maranhão inclusive deu passes quebra defesa todo o tempo em que jogou, e só caiu de produção depois de falhar no gol, algo bem nítido e normal.

Esse time tem futuro e a dinâmica com Levir tende a ser outra a partir de agora, com menos balão pra área e mais passe rasteiro, mais triangulações e menos chutão.

O passe do Scarpa pro gol do Marcos Júnior foi coisa de cinema, é bom dizer. E temos total condição de vencer o Corinthians. Ouso dizer que o Grêmio era, e é, adversário mais duro.

O Fluminense se viu nu e foi à luta mesmo assim.

O Fluminense está nu, mas eu desperto pro que tudo cala frente ao fato de que o rei é sempre mais bonito nu.

O Rei está morto, Viva o Rei! Sobre Fred, Peter e outras histórias

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Fredericos chaves Guedes, o Fred, um dos maiores ídolos da História do Fluminense Football Club, foi nesta madrugada transferido ao Clube Atlético Mineiro pelo valor de cinco milhões de reais em um acordo que contou com anuência e negociação consciente do presidente Peter Siemsem, presidente do Fluminense Football Club.

Esse é o fato.

Como ele ocorreu? Como nos sentimos com ele? Como o analisamos? Tudo isso pode ser feito e narrado de milhares de formas mais ou menos apaixonadas, mais ou menos rígidas, mais ou menos frias, todas elas parciais e limitadas.

Eu vou optar pro ser o mais frio possível na análise.

Primeiro vou fazer um julgamento de valor sobre a participação de Fred e Peter nessa História. Depois vou falar do elenco sem ele e possivelmente sem Scarpa. Em terceiro lugar vou tentar traduzir um sentimento a respeito do elenco, do técnico Levir Culpi e da própria avaliação da torcida.

Por que opto por desenhar isso tudo no texto? Porque quero fugir ao máximo do senso comum, das mágoas de caboclo, das previsões apocalípticas, das mumunhas políticas internas ao Fluminense, etc.

Peço licença pra um desvio da suposta rigidez analítica no juízo de valor sobre Peter e Fred. Porque todo juízo de valor é o contraditório da análise. De resto prosseguirei tentando voltar a uma análise menos apaixonada.

Fred e Peter, cada um com seu cada um, cada um com sua motivação, cada um com suas razões e maluquices, vacilaram feio em toda sua relação.

Resgatar Muricy, Conca e Sheik pra bater no Peter e inocentar Fred é tosco e tolo.

Porque compara camelo com alcaçuz. Sacaram? Muricy foi um caso, Sheik outro, Conca outros dois, Fred um quarto caso.

Muricy queria sair porque a estrutura do Fluminense não era a que ele queria e nem havia exatamente previsão de um dia vir a ser, além do Santos oferecer mais de quatrocentos mil a mais pra ele treinar Neymar na Libertadores.

Sheik, puto com a diretoria e em crise com a maior parte do elenco, resolveu sacanear o Fluminense dentro do Fluminense cavando sua dia pra outro clube.

Conca foi vendido duas vezes com enorme pressão de Celso Barros pra recuperar investimento e com a anuência de Peter Cabeça de Planilha.

Conca e Fred talvez sejam os únicos casos em que Peter tem enorme parcela de culpa. Muricy? Pelo amor de Deus, A saída dele tem menos a ver com Peter e mais com aumento no Santos, com leve amor a um discutível dirigente tricolor que herdamos da era Horcades por pressão do Celso barros.

Na saída de Fred juntamos a inépcia de Peter em gerir crises com a necessidade de reajuste financeiro do clube somado a desejos de um jogador que preferiu ser mimado a ídolo e preferir a grana ao capital intangível que tinha como ídolo do Fluminense.

Peter acerta ao não aumentar Fred e a bancar Levir, mas erra no como fez e faz isso desde lá atrás. Peter erra ao vender Fred pra dentro do país, pra um rival e por merreca. Isso é típico do Cabeça de Planilha, inclusive, morre quando vê o intangível.

Esse crime pode ser fatal pras pretensões de Peter de eleger o sucessor. O que, sinto dizer, tô pouco me fudendo.

Fred acerta ao procurar novos ares se se sente sem prestígio e menos valorizado econômica e animicamente. Fred não tem em Levir o Abel paizão nem capachos como Enderson. Levir não precisa e nem quer que gostem dele, quer vencer. Levir não vai pedir ao Fred, com trinta e dois anos, que fique. Fred é adulto, inteligente, sabe o que faz, é um sujeito com personalidade forte.

Onde Fred erra? Objetivamente ao pedir pra sair agora às vésperas de um jogo decisivo tendo ainda lenha pra queimar e vencer mais títulos pelo Fluminense, possivelmente com ele seríamos candidatos diretos ao Brasileiro e à Copa do Brasil.

Fred erra ao sair pra um rival direto. Fred erra ao trocar uma idolatria por duzentos mil a mais de salário, já ganhando cerca de oitocentos mil e tendo uma vida de rei no Rio de Janeiro, residindo em Ipanema, sendo amado por uma torcida que foi a principal responsável pela sua rápida recuperação pós 7×1.

Fred erra por na disputa de poder interno no clube não ter conseguido demitir Levir, vamos ser honestos, sair pra um rival direto.

Isso apaga a história de Fred no Flu? Não, mas a mancha. Saiu pelos fundos.

E sabemos que quem sai pelos fundos não deve ter previsão de voltar. E é melhor que não volte mesmo.

Notem que essa avaliação que Fred erra é minha, não dele, se ele acha que errou o problema é dele. Sinceramente, estou velho demais pra ficar com dramas pessoais porque um sujeito adulto, dez anos apenas mais novo que eu, resolve fazer cagada.

E como fica o elenco sem ele e possivelmente sem Scarpa? Bem, sem ele perdemos técnica e animicamente, mas não morremos.

Sem Scarpa a coisa engrossa, mas também não morremos.

Por que não morremos? A dor do luto não precisa deixar a gente cego, o.k.?

Se analisarmos nome a nome talvez apenas nas laterais e no meio tenhamos uma enorme perda de qualidade em relação ao elenco campeão brasileiro de 2010, e mesmo assim relativa.

Cavalieri e Júlio César são melhores que Fernando Henrique e Ricardo Berna.

Jonathan é pior que Mariano, mas longe de ser absolutamente pior, dividia inclusive com Mariano o status de lateral de primeira linha em 2010.

Wellington Silva e Igor Julião são laterais direitos reservas melhores que Tiaguinho.

Wellington Silva na lateral esquerda é nosso melhor lateral, até a estreia do William Matheus, e Giovanni é bom reserva e os três melhores que Júlio César, Reserva de Carlinhos.

Ou seja, nossos laterais titulares são piores que os de 2010,mas todos são melhores que os do elenco de 2010, onde a substituição dos laterais era assustadora.

Gum e Leandro Eusébio era a dupla titular e é pior, pra mim, ou no mínimo equilibrada com Gum e Henrique.

Marlon, Renato Chaves e Nogueira são muito, mas muito superiores que André Luís. Digão e Cássio.

Diguinho, Valência e Diogo são bem inferiores a Pierre, Douglas e Edson, sem contar que Cícero como segundo volante é superior a todos eles.

Belleti era tecnicamente o melhor que todos, mas jogou pouco, mal e viveu se contundindo, sendo uma anedota relativa à sua sorte de campeão. Fernando Bob em 2010 era uma sombra do Fernando Bob de 2016.

No meio a presença de Conca e Deco faz a enorme diferença entre o elenco atual e o de 2010, sendo que Deco pouco jogou naquele ano, tendo sido muito mais efetivo em 2012.

O restante era composto pelo Marquinho, raçudo e importante, mas inferior tecnicamente a nossos meias, inclusive os da base.

E Willians, Equi Gonzales e Tartá? Scarpa seria titular em 201o jogando como joga hoje, Cícero também. Daniel é muito melhor que os reservas daquele time.

No ataque Fred e Sheik são superiores a Richarlisson, Marcos Junior e Magnata? Claro, especialmente Fred, mas não há uma diferença absurda entre Sheik e Magnata ou Richarlisson, por exemplo.

Washington em 2010 era um fantasma do Coração Valente de 2008 e perdia gols inacreditáveis. Rodriguinho tsmbém e seria banco do Marcos Junior e do Samuel.

Fred e Sheik ficaram praticamente meio campeonato fora. E tivemos de nos virar com reservas muito inferiores a nossos titulares de hoje.

Vencemos em 2010 na tática de Muricy e no Conca destruindo jogos atrás de jogos.

E é a partir disso que tentar traduzir um sentimento a respeito do elenco, do técnico Levir Culpi e da própria avaliação da torcida.

Levir é melhor que Muricy, que se encastelou numa percepção tática engessada e oportunista, que não traduzem seus inúmeros títulos quando tirava coelhos da cartola.

Muricy acabou em 2010, quando pós-libertadores sentou em cima de seu currículo e esqueceu que a vida é outra.

Levir não, ficou anos em um mercado com valores técnicos menos eloquentes, mas com profundo apego a estudo tático, o Japão. E mesmo assim o Japão hoje também tem produzido valores técnicos de nível Europeu.

E quando voltou, Levir reformulou um Atlético Mineiro que teve perdas de ídolos e técnica com a saída de Ronaldinho e Jô. Mesmo assim refez um time veloz, dinâmico, raçudo e lindo de se ver ressuscitando Dátolo, revelando Carlos, tirando o Tardelli da zona de conforto.

Fred não quis sair da zona de conforto.

Levir tem como fazer o ótimo Richarlisson e o ótimo Scarpa interagirem com o ótimo Cícero e os bons Magno Alves ou Marcos Junior ou Oswaldo e produzirem um time rápido, com forte intensidade e transição veloz.

Não é a toa que os nossos gols tenham saído mais esse ano a partir da transição rápida do que através do uso de Fred como nos acostumamos a fazer.

Nosso elenco é tecnicamente ótimo. Douglas é volante dos mais raros, Cícero um meia/volante com muita técnica, ótima finalização e excelente senso de organização. Scarpa é ótimo e se sair temos substituto no Daniel, se falarmos de técnica ou no Robert, que pode ser recuperado por Levir, ou até Dudu, que foi contratado pra isso e tem tanto a finalização do Scarpa quanto a organização, embora seja mais “pipa voada” e precise de muita supervisão do técnico.

E ainda podem chegar reforços.

Maranhão pode ser titular? Segundo Levir pode, eu não conheço, mas dizem que era peça chave na Chapecoense do Guto Ferreira, excelente técnico.

Então o sentimento de luto da torcida faz uma avaliação por baixo de Levir e do elenco, e não é algo que eu compartilho.

A perda de Fred se sentirá mais do lado afetivo e anímico da torcida. Perdemos nosso maior ídolo, mas temos ainda Scarpa, Gum, Cavalieri e um ídolo antigo capaz de sustentar o peso da idolatria: Magno Alves.

E torcemos pro Fluminense, correto? Estamos mais fracos, mas não mortos e longe de vulneráveis. Já saímos dessas antes e sobrevivemos. Dá pra disputar.

E que Peter e Fred… Bem, deixo pra imaginação de vocês.