A insustentável leveza do Flu

NELSON-RODRIGUES-ESCRITOR-26

Somos campeões!

Não apenas na quarta-feira, está em nosso DNA.

E é indiscutível, Somos campeões!

Hoje da imensa Primeira Liga, daqui a duas semanas provavelmente campeões estaduais e quem sabe o futuro?

Títulos não se acham nas ruas. Por isso entendo quem odeia o Fluminense que tente diminuir suas campanhas e seus títulos através da história.

Dói ver um clube tão odiado como a Geni do futebol brasileiro vencer qualquer coisa, até torneio início de purrinha no Irajá, quanto mais um torneio envolvendo doze clubes, onze de série A, com média de público superior à da maioria dos estaduais e que gerou algo parecido com lucro.

A gente precisa ter paciência com quem nos odeia a ponto de ir até a página do clube com os velhos andrajos de “Pague a série B” ou “torneio que não vale nada, o que vale é Libertadores!”,etc. É do jogo num mundo onde a maioria sequer tem ideia do que significa fidalguia, esperança, amor e vigor.

E não foi fácil. Carregando os estandarte da glória misturado aos andrajos da turbulência política, o Fluminense sofreu a pressão pelos resultados ruins de início de temporada, reformulação no departamento de futebol, piti do Fred e tudo isso pra ostentar a primeira taça da Primeira Liga em sua sala de troféus.

A importância desse título é imensa, por mais razões do que podemos descrever,mas a principal é: Nós somos a História!

A Primeira Liga enfrentou coisa demais pra simplesmente sumir. As divergências internas, as babaquices de Kalil e Petraglia, o desprezo de parte da imprensa, o Flamengo e sua suposta exigência de maior cota de TV, a paúra do status quo de CBF e Federações, tudo isso é menor do que foi a conquista de realizar a competição enfrentando tudo isso e obtendo sucesso.

Não, não acredito quem santos e heróis,mas acredito em política, possibilidade de lucro,etc. Todos os clubes que participam da Primeira Liga precisam dela pra lucrar em 2017.

Se o Petraliga, a mando do Kalil ou não, acha que a PL tem de romper com a CBF enquanto os demais clubes querem que pegue-se mais leve é secundário. O Flamengo querer maior cota resolve-se (E sequer é em si um problema insolúvel com as características do Bandeira). O Internacional achar melhor priorizar o Gaúcho é direito, e problema, dele.

Nenhum desses problemas é algo maior que o enfrentamento, radical ou não, ao Status quo de CBF, etc e o resultado político de ser o germe de uma Liga Nacional, que vem sendo costurada com a Liga do Nordeste e que já deve ter a adesão do Botafogo e talvez do SPFC ano que vem.

Tivemos grandes jogos na competição também, ela foi muito além da política, ele teve jogaços que foram muitas vezes mais numerosos e de qualidade melhor que a maior parte dos jogos pelos estaduais, clássicos incluídos.

Do Fluminense foram excelentes jogos o Cruzeiro x Fluminense, a semifinal Fluminense x Internacional e a decisão Fluminense x CAP. CAM x Flamengo e Grêmio x Avaí também foram bons jogos. E tudo isso com os clubes tateando sobre a competição e praticamente apenas CAP, Inter e Flu buscando conquistá-la.

E mesmo com troca de tempo o Fluminense foi costurando-se com tecidos leves, rápidos, intensos e tornando-se um time perigoso, bom de bola, feroz.

Tudo isso tornou-se insustentável aos olhos dos ódios.

Quem não se enxerga no futuro tende a obscurecer-se em um passado sem glórias.

Imagine você tendo que esperar 41 anos pra ter alguma leve ideia do que poder vencer o Brasileiro, não vencê-lo e mesmo vencendo outros títulos, até alguns considerados tão ou mais importantes quanto o Brasileiro, jamais conseguindo esquecer a derrota, a perda do título para um Fluminense avassalador de Abel, Fred, Cavalieri, Deco e Gum?

Imagine você torcendo para um time cuja maior glória é ter tido um time com Garrincha nos anos 1960 e ter vencido um Brasileiro em 1995 com bastante dúvida sobre a legalidade da vitória na final e tendo menos estaduais que o Vasco que nasceu quase vinte anos depois? Imagine que você celebra-se como único Tetra tendo o Fluminense sido tetra estadual antes?

Imaginou? Pois é, difícil viver assim.

E ainda há quem escolha a mágoa ao prazer de louvar as próprias glórias.

A estes a leveza de quem louva sua própria história, porta a Taça Olímpica, conquistada pelo exemplo de organização junto ao COI, é pioneiro em tudo em se tratando de futebol, superou o inferno da série C e venceu uma Copa do Brasil, dois Brasileiros, tem um vice da Libertadores (sim, considero e valorizo aquela campanha) e uma taça da Primeira Liga, é insuportável.

Essa leveza insustentável, insuportável, supera a ânsia de lançamento de chorume por parte da parte mimizenta das torcidas rivais, obscuramente míopes em se tratando de amor ao futebol, e segue, impávida construindo a História, sendo a História, pavimentando o futuro.

E nem a saída da parceira, que foi razão de festas dos que não nos conhecem, conseguiu impedir nossa grandeza de retornar a seu lugar.

Deve doer a olhos toscos o Wellington Silva, o Oswaldo, o Edson e o Gum jogando o fino, jovens jóias de Xerém como Scarpa, Douglas, Gerson e Marcos Junior, Magnata aos 40 anos sendo decisivo e o Fluminense sendo campeão mesmo sem Fred.

E tudo isso com um time que melhora jogo a jogo sua compactação defensiva, o repertório ofensivo, reduzindo a distância entre as linhas e sendo um time corajoso, raçudo e extremamente técnico.

Não briguem com os rivais, a insustentável leveza do Fluminense irrita mesmo.