Fluminense: Da Lama ao Caos, do Caos à Lama

palmeiras_x_fluminense

Por Gilson Moura Henrique Junior

Depois da derrota para o Botafogo, na pior partida do ano, o Fluminense entrou em parafuso completo.

Essa espiral de caos ocorreu em um momento delicado, início de temporada, jogadores fora de ritmo e se adaptando ao futebol brasileiro e ao novo clube.

Não fosse apenas a derrota, a segunda seguida em clássicos, a péssima partida e fase e a demissão do técnico, ganhamos de presente a demissão pelo presidente Peter Siemsem de toda a estrutura do futebol.

Mas tá tudo bem, tá tudo bom, temos o melhor presidente em anos, saímos da lama do caos financeiro e da dependência de mecenas, estamos prestes a terminar nosso CT, temos uma das melhores bases do país, um futuro promissor e… continuamos um caos esportivo.

Por que demorei dois dias para escrever isso? Porque fiquei dois dias digerindo mais um caso de implosão de qualquer tentativa vã de mísero planejamento do futebol pelo presidente Peter Siemsem.

Pior, fiquei dois dias também observando quem critica parte da torcida que comemora que conquistamos as CND (Certidões negativos de débito), como se comemorar melhoria na situação financeira e administrativa estivesse incorreto e contrariasse a luta por dignidade esportiva.

Dois dias de “Devolvam nossa dignidade!” vindos de quem pede técnico novo a cada três meses e que cobram dos dirigentes que se comportem exatamente como Peter Siemsem se comportou na quarta, para depois criticá-los por agirem de forma apaixonada, como as mesmas pessoas cobraram antes. Confuso? Sim é, pena que os confusos sequer enxerguem isso, quanto mais entendam.

O problema disso tudo é que o “Devolvam nossa dignidade!” não devolve dignidade nenhuma, envergonha quem pede um mínimo de planejamento e lida com Vice presidente demitindo técnico pela mídia, e sendo demitido pelo site do clube por decisão do presidente, que o demitiu por fazer política usando o cargo enquanto faz política usando o cargo para mandar às favas qualquer resquício de dignidade, lealdade e ética na política para fritar o ex-vice presidente.

Confuso? Sim,é. E também revelador de que padrões mínimos de fidalguia, dignidade, lealdade e respeito não são exatamente tão comuns nas Laranjeiras como foram no passado.

O Fluminense há anos não consegue minimamente manter um técnico por mais de três meses. Desde 2011 tivemos praticamente um técnico a cada três meses, a exceção foram Abel e Cristóvão, e ambos foram demitidos em meio à reformulação de elenco.

De Janeiro de 2015 até fevereiro de 2016 tivemos quatro técnicos. Mas tá tudo bem, precisamos apenas escrever e falar as frases mágicas “Precisamos de técnico vencedor!” ou “devolvam nossa dignidade!” que tudo se resolve.

Não? Não resolve? Uai, não vencemos todos os jogos magicamente? O treinador novo tem de aprender o caminho para chegar ao clube, o nome dos jogadores, como lidar com os humores da direção e esperar a melhor forma física e a adaptação completa dos jogadores que chegaram ao clube, além de ao futebol jogado no Brasil (Pros que vieram do exterior) e nada muda magicamente sem treino, paciência, estudo e planejamento?

Pois é, nada na vida nasce e cresce magicamente. Todo trabalhador sabe disso, todo torcedor sabe disso, mas desligam a consciência e a inteligência quando falam de futebol.

Gente com mestrado, doutorado, MBA, falando dezoito línguas age igual ao pedreiro analfabeto quando se trata de futebol: De maneira burra e irracional, além de avessa a qualquer maior profundidade, leitura, estudo e análise.

“Ah, não somos jornalistas!” dirão os torcedores! Pior, alguns são, e escrevem em blogs de portais com enorme apelo e audiência. Fora que não precisa ser jornalista pra pensar, o pedreiro se bobear dá mais atenção que muito doutor ao estudo de futebol.

E o Fluminense? Bem, perdeu dois meses, pré-temporada e o escambau e reiniciou os trabalhos com campeonatos em andamento ignorando tudo o que podia atrapalhar o trabalho de jogadores e técnicos para atender de forma populista uma torcida cada vez menos inteligente e com uma sede de sangue que roda a roleta do perseguido da vez, quase sempre o técnico, mas que não livra nem a cara do Fred, maior ídolo da história moderna do clube.

O que dói é que saímos da Lama da série C, lama para a qual fomos arrastados por direções ineptas, por movimentos que levaram Antônio Gonzales à vice-presidência de Futebol e por ele à série C, e hoje estamos no Caos que pode trazer essa gente de volta à presidência do clube.

Tudo porque ao rifar Mário Bittencourt, Eduardo Baptista e Fernando Simone em nome de alianças políticas e exigências de forças políticas que o apoiam, sem qualquer vaselina ou mínima racionalidade na gestão de crises, Peter Siemsem transformou um clube vivendo má fase futebolística em um clube com o futebol acéfalo, jogadores de saco cheio da zona no departamento de futebol e sob a sombra de uma enorme trairagem entre o presidente e um de seus maiores aliados desde sempre: Mário Bittencourt.

Mas Mário Bittencourt não merecia a demissão? Mesmo se merecesse toda a condução não foi feita para corrigir rumos, mas para atingir a candidatura dele à presidência do clube, e sua imagem como gestor. Pra piorar nos dias seguintes o presidente deu declarações que o eximiam de culpa na grana gasta nas contratações feitas para o futebol e transferiam toda a responsabilidade a Mário Bittencourt. Sendo que até as trepadeiras do Jardim Botânico sabe que Henrique e Richarlison, as contratações mais caras, por exemplo, foram conduzidas diretamente por Peter Siemsem.

E o que isso resolve? Nada. E pior, não é descartável que ao enxergar a ação como trairagem o elenco perca a confiança na presidência em casos como atrasos de salário oi direito de imagem, que ninguém pode dizer que não seja um risco pro clube, pra nenhum clube do país.

E a demissão de Eduardo Baptista, foi correta? Não, não pra mim. O time jogou muito mal nos últimos jogos, tem jogado mal. Eduardo não repetiu as melhores atuações de 2015, merecia uma cobrança dura e sim, um aviso que o tempo estava escasseando, mas jamais ser demitido por resultados em estadual (Que parte da torcida diz desprezar enquanto exige demissão de treinadores em caso de derrotas neles). Eduardo merecia as cobranças, mas não a demissão. É um treinador competente, mostrou isso ano passado no Flu e no Sport. Enfrentava uma reformulação no elenco, com jogadores entrando em forma e ritmo de jogo, Henrique se adaptando ao futebol brasileiro e ao mesmo tempo com jogos quarta e domingo. Perdemos do Flamengo tendo tido teste muito mais duro no meio de semana, e pegamos um Botafogo que não vem de jogos quarta e domingo. E sim, isso tudo influencia.

Todas as razões tiram os erros de Eduardo de questão? Não, jamais, merecia a cobrança, mas cobrar e corrigir rumos é parte do planejamento, demitir a cada três meses não, ainda mais pensando de forma organizada em ter uma boa temporada.

Mas era preciso dar resposta à torcida? Engraçado que o presidente jamais dá essas respostas ele em coletivas quando a fase está ruim, só aparece depois que toma as decisões. Detalhe, jamais fez pesquisas com a torcida e sócios sobre o futebol, mensurando a questão (Existem ferramentas que permitem isso usando a base de dados de sócios do clube), ou seja, agiu pura e simplesmente a partir de uma leitura de rumores, de deduções, de pressões internas e cantos de arquibancada.

E mesmo mensurando com a torcida, valeria à pena demitir técnico? Com dois meses de temporada? Nunca. Planejamento nenhum funciona assim.

E o afastamento de Simone? A pior coisa de toda a comédia de erros. Mário errou ao demitir Eduardo, Peter errou ao demitir Mário pelo site e confirmar a demissão de Eduardo, mas Simone cometeu que erros? O planejamento do futebol foi todo errado? As contratações foram? Ou os resultados apenas pesaram sobre a gerência de futebol? Pra mim nada disso. Não vi erros no planejamento do futebol exceto a logística de viagens dos últimos jogos e a demissão do Eduardo com dois meses de temporada.

A não ser que se considere a montagem do elenco feita por Simone, Mário, Eduardo e pelo próprio Peter como um erro, se foi isso porque o presidente não renunciou? Afinal foi ele também quem escolheu Eduardo Baptista como técnico que supostamente seria o capitão de uma guinada de planejamento e paciência.

A questão é que Peter não tomou essas decisões baseado em critério algum, ele se baseou em dar respostas à torcida e aos grupos políticos que lhe interessam para receber deles apoio, já que o que interessa a ele hoje é terminar a temporada como vencedor em campo e fora dele, para marcar seu nome na história do clube, dane-se se no meio tempo ele torpedear o planejamento que poderia fazer isso gerando pra história do clube a marca de uma gestão moderna também no futebol.

Peter pode até acertar, como parece acertar, com a contratação do Jorge Machado e de Levir Culpi, cujas competências são inegáveis, mas isso não garante títulos, como também não havia certeza que o trabalho de Eduardo fracassaria, não tínhamos elementos sequer para chamar o trabalho de ruim diante das circunstâncias em que o trabalho se deu, sem tempo pros resultados aparecerem.

Levir pode ser campeão? Claro, é competente, tem estilo similar ao que Eduardo queria implementar no Flu, é macaco velho, manja de vestiário, sabe peitar torcida, etc. Além disso, terá a escora de um dirigente muito mais experimentado que Simone, e que conhece o Fluminense, que é o Jorge Machado.

Ambos se vierem serão acertos de Peter, mas acerto esse que não corrigem o maior erro cometido pelo presidente de quinta pra cá: A quebra de confiança e da imagem de dirigente moderno, ético e leal.

E garanto, se parte da torcida enxergou isso os jogadores também viram.

Politicamente o Fluminense entrou em parafuso de vez ao antecipar as eleições. Ao passar o recibo que fecharia já com seu grupo de apoio para eleger um sucessor vinculado ao Flusócio e ao grupo do Vice de projetos especiais o presidente acelerou as divisões internas e se não atender prontamente com seu apoio a esses grupos ou acalmar as disputas entre eles pela nominata piorará a situação.

A oposição salivou com as decisões do Peter, e lançou Celso Barros oficialmente.

Um terceiro nome deve aparecer, um que se destacou exatamente por apontar erros e acertos da gestão atual e propor saídas, Pedro Trenghouse.

Mário Bittencourt sonha em ser presidente, porém foi duramente atingido na última semana, já carregando praticamente sozinho o ônus da contratação de Ronaldinho Gaúcho em 2015. Mário deve sair de cena, mas duvido que apoiará o candidato do presidente.

O quadro que se desenha hoje é caótico, pouco claro, com muito mais dúvidas que esperanças. O certo é que começamos do zero, em Março, a temporada. As chances imediatas de título são pequenas, não sabemos que objetivos temos pernas para alcançar (Vai depender que técnico teremos), embora tenhamos elenco qualificado.

Esse caudal político aliado às incertezas no futebol é trágico e assusta quem viu o Fluminense na Lama da série C e hoje assiste ao Caos no futebol.

Espero que não tenhamos saído da Lama ao Caos para voltar do Caos à Lama.

 

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