As torcidas, os medalhões, a culpa individual e o gol da Alemanha

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Ontem, onze de fevereiro de 2015, teve jogo do Fluminense, o quarto jogo oficial do ano, sendo o terceiro pelo Carioca. Somamos seis jogos no total, dois amistosos e quatro jogos valendo.

Dos seis jogos vencemos um, empatamos dois e perdemos três.

Anotaram a estatística? Pois é, para muitos torcedores basta essa estatística pra mudar o trabalho em Fevereiro. Mas não os vincule à mendicância do resultadismo, pois ofende.

Por que empatamos ontem com o Madureira por 3×3? A explicação óbvia é que tomamos três gols e não fizemos quatro.

Outra maneira de ver o empate é o senso comum que cata o culpado, ou os culpados da vez, e dorme tranquilo no sono fácil dos pouco pensantes.

Não dá pra chiar muito sobre como a torcida reage a empates e derrotas quando a própria imprensa esportiva deseduca a torcida ao ser menos reflexiva e analítica e mais adicta do clique e da audiência fácil.

A imprensa hoje por clique ajuda a torcida a fritar técnicos, aponta menos erros e acertos e vira assessoria de imprensa do imediatismo da torcida.

Não é só no Fluminense, é um fenômeno nacional. Acompanhem os noticiários Brasil afora e exceto Corinthians e Flamengo todos tem técnicos cozidos em maior ou menor grau de fervura de acordo com os resultados. Se o Dorival tá ganhando fica de boa, perdeu? Começa a aumentar o fogo.

Marcelo Oliveira e Argel sofrem há meses com a fritura em seus respectivos clubes e torcida, auxiliados pela imprensa.

Alguns técnicos estão sim devendo em seus trabalhos, mas poucos são os que podem ser cobrados e sofrer com as críticas de que estão devendo.

Com menos de seis meses fica difícil dizer que um treinador fracassou em um clube, com três meses então fica impossível, com três meses intercalados por um mês de férias é até sacanagem.

No caso do Fluminense, Eduardo Baptista é alvo da demência senil do resultadismo em estado grave.

Há explicações menos óbvias para os baixos números de vitórias de Eduardo Baptista, assim como para o empate contra o Madureira.

Primeiro temos de pensar que o trabalho de Eduardo Baptista, já escrevi aqui sobre isso, começou praticamente em Outubro de 2015, ele entrou em vinte e sete de Setembro.

Em Outubro e Novembro Baptista encarou quartas e semifinais de Copa do Brasil e os jogos finais do turno do Brasileiro. Foram onze jogos pelo Brasileiro, com quatro vitórias, seis derrotas e um empate. Pela Copa do Brasil foram dois empates, uma vitória e uma derrota na semifinal contra o Palmeiras.

Nesse meio tempo Eduardo teve a perda dos laterais esquerdos, de Fred, de Gérson (Decisivo contra Vasco e Palmeiras, pelo menos..), além de sofrer com um elenco muito jovem e afobado, embora tecnicamente forte, com a má fase do Gum, com as maluquices do Wellington Silva, a má forma física do Jonathan e a própria desmotivação do elenco depois de ter se livrado de qualquer sombra de rebaixamento.

Pausa pras férias e voltamos com fome. A torcida ainda desconfiada pelos resultados viu nos reforços a solução de todos os problemas. E veio Janeiro, a Flórida Cup e perdemos pro Inter, aumenta-se o fogo de novo, com auxílio luxuoso de rádios e TVs que todo dia falam de Eduardo como se nada de bom ocorresse.

Nova derrota pro Atlético Paranaense, outra pro Volta Redonda, uma vitória contra o fraco Bonsucesso e um empate contra o Madureira.

Pronto, lendo isso metade dos leitores já deve ter pego suas tochas e forcados pra expulsar o demônio do banco do Fluminense, certo? Mídia e portais fazem a festa jogando gasolina nessa fogueira. A contagem regressiva começa, diretoria é pressionada via redes sociais e por conselheiros. Está feita a crise no Fluminense.

Crise em qualquer clube é bom pros negócios, pensa o Editor do portal especializado em esportes.

Pois bem, o que tudo isso significa? Primeiro que torcida e mídia reclamam dos 7×1 contra a Alemanha, mas esquecem seus papéis nessa goleada.

Cobram modernidade, mas não dão tempo pros treinadores trabalharem, ignoram fatores fundamentais como falta de ritmo de jogo, de melhor preparo físico em início de temporada (Neste caso também em fim de temporada, o que aflige Baptista duas vezes), de falta de entrosamento, etc.

Via de regra ignoram também que sistemas defensivos demoram mais a funcionar que sistema ofensivo. Marcar é muito mais difícil do que parece.

Nenhum técnico organiza um time em três meses, ainda mais com mudanças no elenco e férias entre o segundo e o terceiro mês. Agrava o problema quando os jogadores disponíveis para essa organização sofrem as contusões normais de início de temporada.

Sistemas defensivos dependem de coordenação entre as peças, o meio e o ataque, no caso do Fluminense o meio e a defesa mudaram quatro vezes desde que se iniciou a temporada.

A defesa foi formada por Gum e Henrique, Renato Chaves e Marlon, Henrique e Marlon. Ayrton, Leo e Giovanni foram os laterais esquerdos. Edson, Pierre, Douglas e Cícero se alternaram como volantes. Diego Souza estreou ontem, ainda fora de ritmo, por motivos óbvios, e já teve de jogar de segundo volante por emergência e necessidade do time e do placar.

Nenhum técnico nessas circunstâncias consegue o óbvio pra que resultados cheguem: Regularidade.

Na frente perdemos Felipe Amorim e Richarlison por contusão, excelentes possibilidades de alteração ofensiva.

E não há nada de bom no trabalho de Eduardo Baptista? Jura? Claro que há, mas se os resultados não vierem a média burra da torcida, a grande maioria, jamais pensará nisso.

E farão isso com medalhões também, mesmo sendo o fetiche por medalhão o eixo mor dos problemas que técnicos como Eduardo Baptista enfrentam no início de suas carreiras.

O medalhão às vezes só ganha mais paciência porque a grife intimida. Ninguém sequer sabe a diferença entre o Levir e o Aguirre ou o Argel e o Eduardo ou entre Tite e Cuca ou Roth.

Se perguntar qual a diferença tática entre eles tergiversam e falam de outra coisa. Porque também tem isso, debate algum flui hoje porque as pessoas quando confrontadas em seu senso comum usam o artifício retórico da livre associação em random.

Eduardo Baptista conseguiu no fim de 2015, como time hipermotivado pela Copa do Brasil, uma compactação excelente do time do Fluminense, duas linhas de quatro coladas praticamente que avançavam com boa troca de passes até a bola chegar em Fred. Time com boa amplitude, com saída de bola eficiente feita pelo Cícero com ajuda de Scarpa e Marcos Junior.

O Fluminense perdeu vários jogos jogando bem em 2015, apresentando problemas na cobertura da zaga pelos volantes, problema crônico desde que Abel saiu do Fluminense (Abel que em 2011 era fritado com dois meses de trabalho).

Em 2016 o Fluminense ainda não conseguiu apresentar o melhor de 2015 com Eduardo Baptista, só apresentou o pior.

Investigar o pior é mais complexo do que fritar o técnico, eu sei, mas é interessante analisarmos os motivos pelos quais as linhas de quatro defensivas ainda não se acertaram.

É interessante também observarmos o lado bom, porque ofensivamente melhoramos na conclusão, com muito mais finalizações que antes, e como encorpamos ofensivamente do meio pra frente.

Bem, a explicação pro sistema defensivo ainda falhar é até simples: Muitas trocas na zaga e no meio de campo defensivo, aliadas à ausência da melhor forma física e de ritmo de jogo do elenco como um todo.

Eduardo Baptista deu chances a Edson, Douglas e Pierre como volantes, além de recuar Cícero e avançá-lo.

Edson foi muito mal na parte defensiva, embora tenha melhorado a saída de bola.

Douglas e Pierre foram bem, mas com a entrada de Diego Souza Douglas foi o escolhido para sair, dado que Cícero foi excelente como segundo volante em 2015.

Bem, Pierre melhorou muito a marcação e vem surpreendendo pelo passe. Sua dupla com Douglas foi bem, fortaleceu a parte defensiva. Cícero ainda não reeditou o seu melhor, mas com o tempo deve reeditar.

A saída de Douglas era necessária porque Danielzinho hoje é o melhor jogador do meio de campo.

E é preferível o ganho de qualidade na criação proporcionado pelo Daniel do que o ganho de marcação proporcionado pelo Douglas no longo prazo.

Por quê? Porque Diego Souza e Cícero tendem a fortalecer essa mesma marcação juntos quando alcançarem sua melhor forma. Lamento, no entanto, informar que isso não ocorre magicamente.

Talvez a formação ideal seja a entrada de Douglas no lugar de Pierre, mas essa formação também precisaria de tempo.

Na zaga a melhor formação hoje é Henrique e Renato Chaves. Marlon vem falhando muito e expondo o lateral esquerdo. Só que Renato Chaves se contundiu.

Wellington Silva é o melhor lateral direito do elenco, por mais que doa escrever isso, e defensivamente não vem comprometendo tanto. Ofensivamente é hoje uma de nossas melhores armas.

E taticamente? Taticamente temos melhorado ofensivamente e estamos com problemas na recomposição defensiva, os zagueiros, por isso, ficam mais expostos. E isso, pasmem, é natural em início de temporada.

A gente até ajuda aos torcedores informando que os jogadores em férias perdem ritmo de jogo e ficam fora de forma. Quem sabe eles aprendem num dia.

O time busca melhorar a compactação, mas o desenho defensivo de duas linhas de quatro coladas tá lá.

Essas linhas se reorganizam ofensivamente com muita movimentação de Scarpa e Daniel que saem do campo defensivo para o ataque, saindo da recomposição com marcação pelas laterais para atuar como peças em movimentação diagonal no campo ofensivo, alternando presença na ponta com os laterais.

A troca de passes vem melhorando, garantimos posse de bola e isso se reflete ofensivamente com maior número de gols do time. Só que ainda é preciso ajustar a marcação e a cobertura, o que normalmente ocorre com o tempo.

Henrique é o único zagueiro em sua melhor forma, e ontem mesmo fez desarmes fundamentais só possíveis por estar bem fisicamente. Marlon está irreconhecível, mas também sofreu problemas físicos e perdeu treinos, o que em início de temporada é complicado. Giovanni voltou a jogar semana passada, depois de meses parado, e apresenta problemas na recomposição defensiva, o que deve melhorar quando ganhar ritmo e melhorar a forma física. Leo e Ayrton não estão bem defensivamente.

Perceberam os fatores que complicam o sistema defensivo?

Então, a culpa é de quem pelos maus resultados? Do tempo e da falta de paciência.

Com tempo e paciência a melhor forma volta, o time se reajusta em campo e os resultados vem. Agora, com fritura de técnico a cada três meses não vem nada.

Mas claro, pra torcida basta a magia de trocar um bom técnico emergente por qualquer medalhão, mesmo os de gosto duvidoso.

E gol da Alemanha.

PS: O terceiro gol do Madureira foi puro desleixo coletivo.

 

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