O Fluminense ao som e à sombra de Eurico Miranda

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Por Gilson Moura Henrique Junior

Em 2000, ao jogar uma decisão contra o Fluminense logo depois do Flu sair do alçapão que abre o puxadinho abaixo do fundo do poço do inferno da série C, pelas mãos de São Parreira e do outrora candidato a ídolo Roger Maradoninha (Futuro Roger Paquita), Eurico Miranda bradava pelas masmorras de São Januário às vésperas de uma decisão de Oitavas de Final da Copa do Brasil 2000: “Não pago bicho pra time que derrota adversário da série C”.

Bem, o resultado é que o “time da série C” era o Fluminense e eliminamos o Vasco em plena Canaã do Vascainismo. Empatamos por 2×2 com a esquadra luso São cristovense, com o segundo gol advindo de um dos passes mais geniais que jã vi um ser humano dar a outro: Um cruzamento de canhota pelo lado direito do campo na cabeça do Agnaldo, passe este produzido por Roger Maradoninha (Futuro Roger Paquita).

Depois de anos duros, aquele ano de nosso senhor de 2000 me forneceu este espetáculo que foi estar presente numa eliminação de um dos maiores rivais (Que nunca será tão rival quanto o Flamengo) em sua residência, após calar o boquirroto anfitrião.

Há coincidências entre 2000 e 2015, para além da onipresença de Magno Alves no elenco do Fluminense nos dois anos, entre elas há Eurico Miranda e sua trajetória de falar mais que a boca.

Eurico Miranda durante todo o tempo em que passeou sua funesta sombra por São Januário fez o possível e o impossível para tutelar o futebol carioca de forma que este só tivesse espaço para Flamengo e Vasco.

Inteligente, percebeu que Botafogo e Fluminense tinham ficado para atrás na compreensão do futebol já no fim dos anos 1980 e que entrariam em colapso.

Adepto,embora jamais assuma, da tese de que cidade alguma possui espaço e mercado para quatro times grandes (São Paulo e Buenos aires são ilusões,sabe?), Eurico preferiu ignorar o aspecto nacional de clubes como Vasco, Fluminense, Flamengo, Botafogo, SPFC, Corinthians, Palmeiras e Santos e partir para um projeto de fortalecimento do Vasco em detrimento do futebol carioca, abraçado por Eduardo Vianna, o Caixa D’água, e conduzindo arbitragem e campeonatos a fio para tornar Botafogo e Fluminense uma ilusão.

E conseguiu, com pontuais resistências do Botafogo e frontal resistência do Flamengo, que possui uma estrutura de suporte econômico,midiático e político difícil de comparar até com o Corinthians.

O Fluminense durante toda a década de 1980 sentiu na pele diversas más administrações nos anos 1980 e início de 1990 e acabou caindo pra série C em 1998.

O Botafogo conseguiu sobreviver anos com um mecenas vinculado à contravenção, um Castor de Andrade alvinegro chamado Emil Pinheiro, e depois um diretor do Ibope que acabou sendo a grande figura de poder do Botafogo, estando lá até hoje, e sendo responsável pelo brasileiro de 1995 e por súbitas descidas à série B e um descrédito rotativo com iminentes falências do clube.

Já o Flamengo grassava com apenas um título brasileiro em 1992, ainda com resquícios dos anos 1980, e o Vasco tinha a melhor década em muito tempo.

Neste conjuntura ambos além de se tornarem figuras hegemônicas no estado eram os principais times cariocas no plano nacional.

Fluminense e Botafogo mendigavam e se viravam como desse.

Pois bem, isso aconteceu até 1999,quando a Unimed iniciava uma parceria com o Fluminense que durou quinze anos, e quando a lei Pelé entrou em vigor.

A lei Pelé é central na questão porque foi quando o Vasco,a partir da soberba de Eurico, perdeu o rumo.

Eurico sempre criticou a Lei Pelé e por entender que ela enfraqueceria os clubes achou que era melhor investir sempre em jogador já pronto do que investir em categoria de basem, a partir disso enfraqueceu o Vasco, perdendo ativos e mantendo investimentos altos, sem o necessário retorno.

Com isso o Vasco inclusive atolou em parcerias malucas como a com o Bank of America, que deram resultados esportivos com menor peso do que o valor investido. Fora que endividaram o clube (E pode endividar mais após todo o rolo transitar em julgado) entre outras histórias teneborsas.

De 2000 pra cá, por mais que a sandice de Eurico negue, o Vasco teve uma década perdida, só conquistando um carioca em 2003 e tendo como título de expressão a copa do Brasil conquistada em 2011 com Roberto Dinamite de presidente.

Roberto foi um presidente ruim,mas que gerenciou uma terra arrasada deixada por Eurico.

Enquanto isso Fluminense, Flamengo e Botafogo se reestruturaram (Com o Botafogo conseguindo estádio e ao mesmo tempo se desestruturar de novo nesse meio tempo) e disputaram brasileiros, Libertadores e Copa do Brasil.

Conquistando títulos e ampliando a torcida, Fla, Flu e Botafogo mantiveram-se como forças hegemônicas no país e viram suas torcidas aumentar, enquanto a do Vasco reduzia, a ponto da diferença entre a torcida do Vasco e a do Flu no Rio de Janeiro ter reduzido drasticamente.

Basta comparar as variações de resultado entre 1983 e 2009 das pesquisas realizadas no Estado do Rio de Janeiro, por exemplo.


Se a partir de 1983 o Vasco ampliou agudamente a distância entre sua torcida e a do Fluminense, esse caminho vem reduzindo de 2000 em diante, chegando a uma diferença de 3% no Estado do Rio de Janeiro. Algo impensável nos anos 1990.

E se sabe que diferença entre tamanho de torcida é diferença entre capacidade de obtenção de investimento via TV ou com patrocinadores.

O Vasco hoje ocupa uma faixa de cota de TV que se baseia em números engordados por sua torcida fora do estado,mas com ela reduzindo no estado reduz também seu percentual. Além disso a fase do time impacta crescimento da torcida.

E ai todo o plano que Eurico sempre sonhou de dividir hegemonia com o Flamengo, e com isso dividir poderio econômico, vai por água abaixo.

E tudo isso porque Eurico meteu os pés pelas mãos e enfraqueceu capacidade de investimento do clube nos anos 2000, destruindo divisões de base e torrando grana de parceiros em contratações bizarras sem retorno.

Ah? Vocês achavam mesmo que Eurico era rival do Flu porque odiava o Flu? Não, Eurico pensa em grana e poder, fios.

Por isso tudo que Eurico,boquirroto e esperto que é, tentou atingir no peito seu principal adversário no Rio,para enfraquecê-lo economicamente e esportivamente novamente,em busca de transformar o Vasco novamente no par do Flamengo na preferência de patrocinados e TV.

Só esqueceu de combinar com os russos.

Supervalorizar o Campeonato Carioca não foi exatamente inteligente. Montar mal o elenco e se baseando na mesma lógica dos anos 1990,com medalhões de gosto duvidoso e achando que vencer clássicos faria o time pegar no breu e ganhar jogos em sequência evitando rebaixamento também foi erro.

Bater de frente com a Primeira Liga não é exatamente genial.

Eurico voltou dizendo que o respeito tinha voltado,mas ainda não tinha entendido que era preciso também voltar uma sagacidade dele que morreu quando ele leu mal o impacto da Lei Pelé.

E é por isso que as coincidências entre 2000 e 2015, para além da onipresença de Magno Alves no elenco do Fluminense nos dois anos, tem em Eurico Miranda a irônica repetição como farsa do cruzamento de caminhos entre Flu e Vasco.

Em 2000 encontraram-se Vasco no auge e Flu recém saído do inferno. Em 2015 se reencontram o Vasco no inferno, e possivelmente voltando pra lá, com um Flu reconstruído e com um caminho administrativo e esportivo bem desenhado,com pés bem postados em uma fábrica de ativos chamado Xerém.

Enquanto isso o Vasco depende de jogadores em fim de carreira e que cansam aos trinta do segundo tempo, a base tenta se reconstruir com aliciamento de jogadores dos rivais e perde-se patrocínios como quem perde o ônibus por tacanhisse da diretoria.

Pra coroar a ironia o Vasco depende do Flu parar o Figueirense na última rodada do campeonato brasileiro de 2015 após passar o ano sendo prejudicado e sacaneado pelo dirigente Vascaíno e seus parceiros da FFERJ.

Seria genial se o Flu vencesse o Figueirense com um gol de Magno Alves e o Vasco perdesse do Coxa,mas isso são delírios do roteirista.

Abaixo alguma das pesquisas supramencionadas:

Pesquisa realizada pela Placar/Gallup na Região Metropolitana do Rio de Janeiro

(publicada na edição de 17/junho/1983):

1º Flamengo     54 %
2º Vasco        15 %
3º Fluminense   14 %
4º Botafogo     10 %
5º America       2 %
6º Americano     1 %
7º Bangu         1 %
   Outros        2 %
   Nenhum        1 %
Pesquisa realizada pelo Lance!/IBOPE no Estado do Rio de Janeiro em 1998:

1º Flamengo     44 %
2º Vasco        19 %
3º Fluminense   10 %
4º Botafogo      9 %
   Nenhum       16 %

Pesquisa realizada pelo Lance!/IBOPE no Estado do Rio de Janeiro
(publicada na edição de 04/10/2004):

1º Flamengo      48,3 %
2º Vasco         18,7 %
3º Botafogo       9,2 %
4º Fluminense     8,2 %
5º São Paulo (SP) 0,5 %
   Nenhum         13  %
   Outros:         2  %

Pesquisa realizada pelo Datafolha/Folha de São Paulo no Estado do Rio de Janeiro
nos dias 23 e 24 de maio de 2006:

1º Flamengo      46 %
2º Vasco         16 %
3º Fluminense    10 %
4º Botafogo       7 %
   Outros/Nenhum 21 %

Pesquisa realizada pela empresa TNS Sports no Estado do Rio de Janeiro
e divulgada na edição nº 1.311, de outubro de 2007:

1º Flamengo     56,3 %
2º Vasco        22,9 %
3º Fluminense    9,7 %
   Botafogo      9,7 %
5º Outros        1,4 %

Pesquisa realizada pelo Datafolha/Folha de São Paulo entre 26 e 29 de
novembro de 2007 no Estado do Rio de Janeiro e divulgada em 14/01/2008 : 
 
1º Flamengo      43%
2º Vasco         18%
3º Fluminense    11%
4º Botafogo       9%
   Outros/Nenhum 19%

Pesquisa feita pelo Datafolha entre 14 e 18/12/2009 e publicada na Folha
de São Paulo em 03/01/2010:

1º Flamengo      51%
2º Vasco         13%
3º Fluminense    10%
4º Botafogo       9%
5º Corinthians
   Palmeiras      1%
7º Atlético-MG    *
   Bahia          *
   Cruzeiro       *
   Grêmio         *
   Santos         *
   São Paulo      *
   Outros clubes  1%
   Nenhum        14%

* não chegaram a 1% cada

Pesquisa realizada pelo Instituto GPP realizada entre 31 de julho e 01 de agosto de
de 2010 no Estado do Rio de Janeiro e divulgada no site GLOBOESPORTE/Coluna TEORIA DOS
JOGOS em 20/04/2012 :

 1º  Flamengo   47,9%
 2º  Vasco      15,7%
 3º  Fluminense 12,8%
 4º  Botafogo    9,6%
 Outros clubes   1,7%
 Menhum         12,3%


					
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