O pensamento mágico no futebol

F 12 - 1959 - Brasil 3 x Uruguai 1 - sul americano - voadora de Didi

No futebol brasileiro,e desconfio que não só, há uma recorrente utilização de termos genéricos que praticamente definem todo o jogo, especialmente quando clubes tradicionais estão em má fase.

Dá até pra fazer um bingo, porque é batata que quando um clube tradicional tá em má fase vão aparecer: “O time é um bando”, “Técnico perdeu o grupo”, “falta raça”, “Precisamos de técnico vencedor” e isso tudo evolui pro inevitável “É preciso dar uma sacudida no elenco”.

Ninguém dá a mínima pra avaliação tática, técnica, de forma física, de jogadores e da equipe,mas deita-se e rola-se no pensamento mágico que produz “jogador é de grupo”, “Ex-campeão da libertadores e sabe os atalhos!”, “Jogador experiente, sabe os atalhos do campo!”, “Jogador não corre!”,etc,etc,etc…

Aliás o “sabe os atalhos do campo” é uma das mais engraçadas e mal usadas metáforas do jargão futebolístico brasileiro. Se antes era uma metáfora da criação de facilidades pelo craque, hoje virou muleta. Parece até que jogador experiente e ruim cria buracos de minhoca em campo, já que não é craque.

Ninguém pensa que o “Treinador vencedor” já foi “chorão”, “covarde”, “frouxo” em outras épocas, até acertar trabalho, ganhar estabilidade,desenvolver seus times, táticas,etc..

Ninguém pensa que jogador, novo ou velho, se cansa, que trocas constantes de peças, falta de tempo pra treino, derrotas consecutivas, tudo isso mexe com desempenho técnico e tático de uma equipe.

E não é só a torcida quem faz isso, a grande maioria da imprensa faz isso também. Apuração? A maior parte acha que apuração é coisa de escola de samba.

Basta uma sequência de vitórias para a chamada “cultura do futebol brasileiro” gritar que “Pintou o campeão!”. Idem pra sequências de derrotas gerar o famigerado “É preciso sacudir o elenco”.

Jogador de futebol no Brasil é infantilizado pela imprensa, pelas diretorias, pela torcida, que depois reclamam que jogador de futebol é infantilizado.

Aliás, o futebol brasileiro é infantilizado, infantilizante e as torcidas são criancinhas mimadas que choram quando o mundo real não dá margem pra pensamento mágico.

O Caso Enderson Moreira no Fluminense é emblemático.Foi de diretamente responsável pela boa campanha no primeiro turno que levou um time desacreditado, repleto de jovens, ao G4 a “fora Enderson”.

Entre um estágio e outro se passaram cerca de quatro meses, sendo que em parte deles o elenco foi praticamente reconfigurado com apostas caras,verdadeiros medalhões, com desempenho abaixo da Crítica (como R10 e Osvaldo). Contusões em titulares importantes e jovens em ascensão (além da venda do Gerson) levaram ao time a ter de ou se virar com adaptações (na lateral esquerda por exemplo) ou apostar em jovens, que por melhor desempenho que tenham tido ainda sofrem com afobação, por exemplo.

Nesse meio tempo o Fluminense entrou em franca decadência, altamente explicável sem desespero e apontando falhas de muita gente, inclusive a do técnico, sem no entanto julgá-lo único culpado ou ignorar suas qualidades, menos ainda apelar pro pensamento mágico de que” é preciso sacudir o elenco”ou “O treinador perdeu o grupo”.

Aliás, o clássico “O treinador perdeu o grupo” no caso do Fluminense que se entrega de forma absurda nos jogos é delirium tremens.

Erros do Enderson? Insistência com zagueiros experientes, mas com baixa qualidade técnica; Insistência com Cícero,R10 e Osvaldo visivelmente fora de forma; Adaptação do Gustavo Scarpa por tempo excessivo na lateral esquerda e demora em barrar Edson, por exemplo, e usar Douglas ou outro jovem, poderia também usar jovens na zaga (Os experientes falham demais, os mais jovens poderiam ao menos nos dar falhas novas).

Esses erros se deram por teimosia, mas também para evitar queimar jogadores jovens em fase ruim do time, além de não poderem jamais ocultar seus acertos.

E os erros da diretoria? E os erros dos jogadores? E as consequências de uma pré-temporada mal planejada, de três preparadores físicos diferentes no ano? E a má fase física e técnica de jogadores outrora cruciais como Gum e Edson? Só se cobra a conta do treinador?

E há mais coisa, é preciso avaliar taticamente o time, que com Enderson vem tendo os melhores desempenhos táticos desde Abel. E não, não estou maluco.

Cristóvão conseguiu atuações exuberantes com o Fluminense em 2014, mas que não duraram dez rodadas. Enderson foi da terceira até a décima quinta rodada com excelentes atuações, no mínimo atuações sólidas, mesmo com derrota. Até derrotas para a Chapecoense e Avaí tiveram boas atuações, contra o Vasco não tivemos atuação ruim. Contra CAP e no Fla x Flu do primeiro turno jogamos de muito bem para excelente. Nos ultimos jogos, empate contra o Coxa e na derrota para o Sport, tivemos grandes momentos. Fomos muito bem emCuritiba e mesmo mal em Pernambuco dominamos parte do jogo.

Além disso, a recuperação de atletas como Marcos Junior e Gustavo Scarpa é digna de crédito por muito tempo. Sem contar a confiança que passa para Marlon e Leo jogarem com desenvoltura. As chances a Michael, Higor, Rafinha, Victor Oliveira também são notáveis.

E tudo isso com a confiança e entrega da maior parte do elenco.

Grupo fechado em torno do Enderson, diretoria também, mas óbvio, são todos idiotas, só quem manja de gerência de futebol é a arquibancada.

Fora que avaliar o Enderson sem considerar a barafunda que a diretoria fez com o trabalho dele, que ia muito bem, é brincadeira.

Enderson pra mim é treinador de bom nível, que precisa de mais de quatro meses pra dar cara ao time. E sem sobressaltos.

Raros são os técnicos que montam trabalho rápido e duradouro. Cuca talvez seja dos poucos. Abel leva seis meses. Mas ignora-se isso pensando como se troca de técnico e futebol fosse “simples’ e “mágico”, não é nem um, nem outro.

Futebol, como todos os esportes coletivos, é complicado pra caramba. Simplificá-lo, ou melhor, torná-lo simplista é metade do problema construído por uma imprensa esportiva arcaica, fofoqueira, tosca e que prefere caçar cliques a apurar e construir opiniões semclubismos ou reféns dos humores dos profissionais de imprensa.

Ah, no Brasil jamais se perde pra um adversário, o adversário só é respeitado se for clássico, e olhe lá. Por isso o “Falta vontade e entrega” abunda, dado que é óbvio: Meu time jamais pode perder pra outro adversário superior taticamente ou tecnicamente, especialmente se não tiver a mesma tradição, ele perdeu para sua falta de vontade. Ah, meu time quando vence nos últimos minutos na base da raça é mérito, quando perde é falha.

E quando tudo isso sai de grupos políticos ligados à presidência de clube? Torcida pedir cabeça de técnico é o ó, grupo político de situação é irresponsabilidade, pra ser educado.

No dia que eu ler motivo razoável pra demitir técnico eu dou valor. Tipo: escola tática do Enderson é de abdicar da posse de bola. Alguém parou pra pensar nisso?

Alguém olha como o Flu joga com as linhas dequatro na defesa e sai pro contra ataque (Ponto forte da tática do Enderson) ? Alguém presta atenção como a falha maior do sistema defensivo é a excessiva dependência dos volantes e dos meias recuarem pra recompor e isso demanda forma física, que anda faltando?

Pois é, 90% dos gols que tomamos saíram da ausência de alguém ocupando o espaço onde estaria o volante clássico. Isso funcionava antes, porque parou de funcionar? Forma física degringolada provavelmente.

O mais engraçado é pedirem Cuca, Abel ou Muricy, que são “treinadores vencedores”. Nem vou mencionar salário, multa rescisória, nada disso, vamos relembrar que Abel era Abelanta, Cuca era o “chororô” e Muricy inventou uma lorota de ratos no vestiário pra abandonar o barco e assumir o Santos ganhando o dobro do que ganhava no Flu (além de ser obsoleto, não usar a base dos clubes e ser caro). Renato Gaúcho é piada de mal gosto. Vagner Mancini ou Guto Ferreira? Perfil tático diferente, mas grau de conhecimento idêntico ao do Enderson.

Nesse meio tempo falam de Oswaldo de Oliveira no Fla ou de “sacudir o elenco”. Ignorando que OO fez parecido no início de 2015 com o Palmeiras, até começar a ter perdas no elenco e perder jogos e que “sacudir o elenco” foi o que fez o Internacional que… permaneceu patinando no campeonato mesmo com o “sanguíneo” Argel no comando.

Deixem o Enderson trabalhar. Deixem os jogadores se recuperarem, deixem o cara conseguir treinar o time, deixem o grupo responder em campo. O time tá perto da virada, com a melhor formação possível no elenco entrando em campo, com perfil tático do melhor do primeiro turno reaparecendo.

Abel em 2011 passou por período idêntico, e com mais respaldo e elenco, ao que Enderson passa, com paciência organizou o timaço de 2012.

Com tempo e paciência tudo se encaixa, futebol é repetição, treino, naturalização de gestos, práticas e posicionamento, e isso demanda tempo e estabilidade.

Com tempo teremos mais e mais treinadores vencedores, times fortes, variação tática, e não tô falando só do Flu.