Faltou atitude ao grupo? Sobre o Fluminense no clássico

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“Faltou atitude ao grupo” e “O time jogou apático” são duas das expressões mais comuns no jornalismo esportivo; essas expressões são usadas pra descrever de tudo, desde falta de raça a times inteiros dominados por outros times e incluem uma percepção falha da análise tática onde o adversário se tem méritos são menores que a ausência de mérito do outro.

No último Fluminense x Vasco, onde o time do Vasco dominou amplamente o jogo, essas duas expressões rodaram na transmissão, nos comentários pós-jogo e nas reações da torcida tricolor diante do resultado adverso. Junto dela veio a famigerada “faltou raça!”.

O curioso é que vendo e revendo o terrível clássico o que se viu foi um amplo domínio tático do Vasco sobre o Fluminense e nenhum sinal de ausência de comprometimento do time do Fluminense no clássico. Os jogadores do Fluminense em si não estavam nada apáticos, pelo contrário, se esforçavam dentro de uma lógica tática do treinador que mais confundiu do que resolveu as falhas da equipe.
O que se viu foi Edson e Vinícius, Henrique, Lucas Gomes, entre outros jogadores, se jogando na bola e tentando  superar as falhas táticas da equipe. Ao ponto de Edson, Vinícius, Rafinha e Henrique irem com fome demais na bola e tomarem cartão amarelo e advertências sobre excesso de dureza nas jogadas. Rafinha inclusive foi expulso por ir com violência excessiva em uma jogada contra um adversário.

Marlone e Fred, atacantes, voltavam pra ajudar na defesa e buscavam jogo, Jean, Wellingotn Silva e Giovanni, depois Kennedy e Gérson se esforçavam para atacar e defender. Todos, sem exceção, tiveram atitude e se entregaram no jogo, mas o resultado não veio e não superaram o domínio vascaíno. Então porque o resultado não mudou com esta entrega?

Foi falta de raça?

Os diversos lances do jogo onde os zagueiros, defensores em geral, meio campistas e atacantes lutavam contra a superioridade tática e a influência da arbitragem não me dizem que faltou raça, atitude ou que a apatia dominou. O que ficou claro, e pra ampla maioria da torcida tricolor também, foi que faltou tática, parece que o time entrou com esquema diverso do que estava acostumado e que o técnico não conseguiu nem com alterações nem com orientações superar a tática do adversário.

Não são poucos os exemplos de equipes tecnicamente superiores que são dominadas e perdem jogos para equipes inferiores. O próprio Doriva foi campeão paulista derrotando o Santos com um Ituano muito inferior tecnicamente.

A explicação da falta de apatia em cima do fato que o time do Fluminense não pegou a bola após o pênalti e saiu correndo pra pô-la no centro do campo e por isso estava apático é de um simplismo atroz. Primeiro porque esse ato é muito fofinho e bonito como cena dramática, mas tem resultado zero.

A contagem do tempo após o gol não ocorre, o jogo é paralisado até sua retomada com a saída de bola no meio campo. Essa pegada de bola no gol é simbólica e não funciona mais do que isso. Faltou atitude à seleção brasileira em 1958 quando didi veio lentamente caminhando com a bola debaixo do braço para a pôr no centro do campo para uma nova saída? Me poupem.

A explicação de apatia para definir uma derrota é a anti análise e não funciona a todo tempo. O que faltou foi por no chão a tal superioridade técnica, foi ter superioridade tática, superar a tática do adversário com mais do que troca de peças que não alteraram em nada a tática original.

Se o adversário dominava a defesa e marcava adiantado o fez porque o técnico tricolor alterou as características originais da equipe de exatamente marcar adiantado e no campo do adversário como faz há um ano. Essa alteração custou caríssimo, foi como testar uma nova variação tática com poucos dias de treino e em um clássico, e isso é fatal e se mostrou mais falta ainda na prática.

Com o adversário dominando taticamente o jogo como se resolveria isso? Talvez entrando com mais um meio campo defensivo no lugar do Marlone deixando o ataque com Lucas Gomes pela esquerda, com menos obrigações defensivas além da marcação da saída de bolas e Fred organizando o ataque, fazendo pivô e se colocando pra receber bolas e finalizar, avançando o Jean pra junto ao Vinícius pra municiar o ataque e contando com Wellington Silva como lateral ofensivo, sendo coberto pelo Rafinha, tendo o Edson auxiliando a zaga na cobertura e atuando na saída de bola com o Jean e Vinícius auxiliando. O que Cristóvão fez? Alterou as peças mantendo o esquema e tentando voltar ao esquema original sem promover concretamente alterações táticas com a equipe em campo.

Alterar Lucas Gomes de lado e por o Kenedy não resolveu e nem vai resolver sendo feitas dez vezes se as funções originais permanecem as mesmas. Quando o Gérson entrou o time melhorou exatamente porque um meia a mais ampliou a presença de jogadores no meio e reduziu o domínio territorial vascaíno.

Jogadores não tem culpa? Claro que tem, inclusive por não reagirem às orientações do técnico durante a semana e apontarem o erro, por não conhecerem mais tática, por serem tímidos, por estarem mal tecnicamente e nãos e prepararem emocionalmente para encarar um clássico, por falarem pouco, por muitas coisas, mas para serem acusados de apatia eles teriam de concretamente estarem apáticos em campo, sem raça,etc..

A partir desses simplismos, que se são normais na torcida são um c8irme no jornalismo, criam-se as teorias da conspiração que colocam Fred como um gênio do mal que controla elencos e destrói técnicos, técnicos que supostamente perdem o elenco e são sabotados (algo que ocorre, mas com menos frequência do que “analistas” apontam como explicação mágica),etc..

Enquanto isso  mal se analisam erros táticos com a seriedade que se exige um jogador perdido porque foi mal orientado. Time nenhum se encontra em campo com uma tática equivocada e que praticamente expõe todo o grupo ao domínio adversário

Houve baixo nível técnico por parte do Fluminense? Sim em vários momentos e vindo de vários jogadores. Vinícius correu, mas foi pouco útil tecnicamente. Lucas Gomes estava participativo, porém não repetiu desempenhos que demonstrava potencial técnico superior ao que teve. Marlone novamente não consegue por em prática uma técnica que sugere ter. Kenedy não se encontrou, Jean esteve abaixo do que rende, Giovanni idem. A dupla de zaga esteve muito melhor que nos últimos jogos, só que seu desempenho foi extremamente prejudicado com a tática que Cristóvão optou por em campo para o clássico. Edson foi um leão que também esteve extremamente exposto na opção tática. Fred estava sumido até o segundo tempo quando saiu mais e inclusive deu passe precioso para o Gérson, melhor em campo pelo fluminense junto com Wellington Silva, que serviu a bola ao meio esperando a entrada de Vinícius o Jean que ficaram olhando, perdidos, incapazes de agir por estarem desempenhando papel tático confuso.

Então a culpa foi toda do Cristóvão? Do Cristóvão e da direção do futebol que não atua para corrigir falhas crônicas do técnico e que se repetem, reduzindo seu potencial de criação e gestão tática e o colocando contra a torcida, que, chata como se conhece há muito, já pede sua saída.

Cristóvão decide sozinho tudo a todo o tempo, não tem anteparo, não tem discussão técnica e tática, cobrança de metas, não tem análise de escalação e de rendimento do elenco? É oq ue parece e isso é complicadíssimo.

Óbvio que não se pede que exijam do técnico a escalação deste ou daquele jogador, mas é fundamental discutir se as opções táticas estão funcionando e cobrar explicações sobre como o técnico pretende que os jogadores tenham um desempenho condizente com o esperado.

Não é “tem de pôr o Walter pra jogar!”, é “Será que o Marlone rende bem na posição em que está escalado? Será que não é interessante variação de jogadas e táticas com a entrada de mais um meio campo? Será que não é interessante treinar dua sou mais variações táticas além da que foi construída ao longo de 2014?”. É colocar as questões, discuti-las com o técnico, estabelecer um debate que inclua cobranças de metas e de organização tática para um desempenho condizente com um clube do tamanho do Fluminense. É colocar que a cobrança da torcida existe, o que a torcida cobra, o que a direção entende que possua falhas, ouvir as explicações do treinador, dar razão a ele se preciso, discordar dele se preciso, estebelecer um diálogo que não corte o papel central da gestão do time do treinador, mas que construa o melhor pra equipe.

O treinador é a última palavra e assume os riscos dela, mas a gestão que não participa da construção da equipe e da estruturação das metas de desempenho, que vai além dos resultados, acaba perdendo a razão de cobrar resultados se se omite na gestão do futebol em espectro amplo. Se o técnico assume os riscos, mas conhece as cobranças por desempenho e os diagnósticos coletivos da gestão ele sabe que se errar foi avisado antes e insistiu no erro, caso o desempenho permaneça, ou seja, se as condições de suporte existem e ele abdicou de usá-las e tudo degringolar ele não pode alegar que foi desavisado.

Em resumo, os problemas de uma equipe são muito maiores do que a insistência do jornalismo esportivo em agir como criadores de foto novela pode definir. A lógica do “Faltou atitude’ é irmã do jornalismo que adora um tipo de narrativa que prioriza conflitos humanos á análise de como jogam as equipes, suas falhas e virtudes e que empobrece sua atuação ao preferir fofocada a análise.