O Sacador das Paradas

images3A sabedoria como arma de repetição indefinida da mesma coisa como verdade só vista pelos inciados pode ser qualquer coisa, menos sabedoria.

Enxergar o que os demais não enxergam é raríssimo e em geral só ocorre quando você é aquele leitor de livros pra cegos no instituto Benjamin Constant, e olhe lá, porque tem os demais companheiros leitores ao lado pra sacanear sua especificidade.

O sujeito que se posiciona como sacador fodaço do concreto, enquanto obviamente por oposto você é uma mula míope que faltou aula demais no supletivo e não sabe de nada, geralmente é aquele cara que carrega a mesma verdade usada há uns dez anos, talvez herdade de um tio vetusto, e repete ela ad infinitum, e óbvio, como qualquer relógio parado acerta algumas vezes.

O Sacador das paradas, como chamaremos a partir de agora nosso amigo mala sem alça, é muito comum em partidos, organizações de direita, fascistas, micro-organizações de esquerda,igrejas evangélicas mutcho doidas, praças, pregações, testemunhos de Jesus e Jeová (que devem ter cometido um crime feio porque tem uma porrada de testemunha a favor deles) e outros antros mal iluminados e fechados que causam este tipo de fungo obviamente tóxico a quem por exemplo, não acha tudo assim tão simples.

Aliás, o simples é geralmente irmão da verdade no discurso da rapaziada. É tudo muito simples na maioria do discurso e é até fácil entender o motivo, quando a gente tira todo o complexo da discussão, todo o concreto e suas miríades de possibilidades, o que fica é o simples, só que esse simples tende a ser simplório.

ball_bandeira_eua_fivbQuando você vê alguém dizendo que é simples alguma coisa que tá na cara que é óbvio que não é nada simples, espere mais cinco minutos e lá vem a verdade, vestida de fraque, pincenê, polainas e com vocabulário empolado. É aquela verdade do XIX, que salta na tua frente que nem assombração e não se fura a te dar um mega esporro porque tu não leva a menor fé nela, que é a enviada da Razão, ainda mais depois que Hitler usou a Razão pra matar uma rapaziada ai em fornos e câmara de gás.

O detentor da verdade, o Sacador das Paradas, além de mala é arrogante. E de uma arrogância poucas vezes amiga de algum tipo de inteligência. Em geral o cara caga solenemente para uma série de pressupostos do real que ele diz analisar e manda ver no mantra mais próximo e ainda diz que todo sujeito que pondera qualquer coisa é que é o idiota.

images2Então não se surpreenda com a presença do Sacador das Paradas em um mundo a cada dia mais em crise porque a tal razão foi tomar chá e era de cogumelo. Ele é filho dileto da crise da razão, por isso se agarra à uma verdade construída coletivamente e repetida de forma ritmimada em mantras, palavras de ordem e místicas que a estruturem como um colchão de conforto em um quadro onde a miríade de explicações exige mais que simplismo.

E ai o Sacador das Paradas pode ser um Sábio algum dia, quem sabe? Mas numa civilização onde você não vai mais estar.

Todo babaca tem um pouco de navio negreiro

1-a-a-a-a-homossexuais-laerte-todo-mundo-gayO bom humor é uma característica exigida nos cotidianos da vida, nessa linha tênue entre leis atávicas do senso comum e brilhantes variações psicológicas da indústria da felicidade auto-ajudada. Pra emprego então o bom humor disputa cabeça a cabeça com o dinamismo o status de primeiro critério de seleção.

Bom humor e dinamismo tornam jegues em gerentes, e tornam-se mais que meros recheios de um mundo de competência adquirida. Bom humor e dinamismo tornam um sujeito banal em um bemhumoradíssimo gerente chefe da rapaziada, amigo do diretor e genro do dono.

O Bom humor tornou-se faz tempo uma lei geral da humanidade, sorrir é preferível a xingar. Sorrir é mais importante que lutar por direitos, que refletir. Sorria, sorria, é tempo de sorrir, sorria!

Um sorriso dinâmico é melhor que MBA.

A felicidade que irá desabar sobre os homens é mais que uma ditadura, ela virou um status quo gargalhante numa versão concretizada do Admirável Mundo Novo de Huxley, onde nem as pilulas de felicidade e simulação de orgasmo faltam mais.

Só que a felicidade obrigatória tem um que de punheta. É bom, mas… Não é foda.

A felicidade obrigatória não tem o tom de amargura que o riso tem, todo ele, em suas melhores fases. O ceticismo cínico de Groucho não era fruto de anos felizes nas neves europeias, rir ali era desmoralizar a partir de um riso descrente no outro, descrente e sabedor do patético do humano. Chaplin idem, Monty Python idem. O bom, no sentido qualitativo, humor, era menos o bem humoradismo babaca de hoje e mais um humor de qualidade filho dileto do cinismo e da descrença no humano.

“Ah, mas Chaplin acreditava na humanidade!”, sim, acreditava, mas vendo que ela era ao mesmo tempo patética, cruel, burra. Monty Python idem faz troça da própria fé na humanidade, que todos eles têm. O humano patético, burro, cruel, raso é um humano que mesmo sendo uma bela anta pode transformar o mundo. Mas ele nunca vai transformar o mundo se for tratado como um babacão sorridente e acomodado na caixinha em que foi destinado a se encaixar.

Todo babaca é contra-revolucionário.

navio-negreiro-dafhneE aliás, esse lado entusiasmado, empolgado, feliz e sorridente da babaquização da humanidade é o que torna as pessoas de uma burrice estanque atroz. É a burrice babaca, do cara que opta por não refletir em nome de garantir seu pedaço de estábulo, com medo de refletindo entender o quão babaca está sendo e com isso perder sua ração diária de feno.

O bom humor obrigatório babaquiza e estagna até o imbecil atávico.

No reino do humor construído em um mundo árido, feito do ceticismo necessário que não aceita entrar em um clube que lhe aceite como sócio, o imbecil atávico ri, mas ri mudando, deixando de ser zé ruela, ri de si mesmo, ganha sabedoria.

A acidez do riso canalha desimbeciliza o homem.

E todo babaca tem um pouco de navio negreiro.